Sylvia Orthof EBAL, 1987 36 pp. Como hábil tecelã de versos, Orthof-lírica é Penélope às voltas com um novelo de aranhas e rendas, ariadnes e filomelas, sereias, fadas e borboletas... Na capa rosa que o tempo vem desbotando na minha estante, encontro uma multiplicidade de mãos que prendem-soltam um fio contínuo, prestes a embaraçar... E, lá, na calma imagem-emblema, a mulher em branca túnica, puxa os fios de um tecido qualquer, com suas três mãos e a linha enroscando-se em seu pé. Três mãos? Ora, por que não? É Penélope penelopando que tece e destece, reinventando à sua moda uma tricotada poesia. Sylvia Orthof dá volteios lúdicos, rima laçadas inteiras e meias com pé-de-vento, pé descalço, xulé, rimas de pé-quebrado, gol de Pelé. De toda a diversão, exala um contido acalanto singelo em pontos de tico-tico, neblina e luar... Sim, aprendi com este livro que toda lenda tem festa de renda — e um mar imenso de sonoridades amenas pro pensamento velejar. Gosto de bater à porta do poema-castelo, onde dorme belamente a Bela Adormecida. « Sobre as cortinas bordadas de roseiras todos em flor, espinhos ponteagudos a defendem do amor? » Outros versos versejam a respeito de pontos e bordados fechando portas e portais, revestindo escadas, sombras no sol e lilazes... No conjunto dos vinte e cinco poemas, é das decisões da autora que o texto se entranhe e se desmanche como lenços e sonhos intertextuais: muitas vozes são alinhadas e alinhavadas, do clássico ao cordel – e Orthof trabalha em refazenda com a criança que brinca, nos versos se aninha e voa, bem antes que galopassem Lancelot e Lampião um mesmo destino. « Quando se acerta a poesia, tudo vira aventura. lenda de capa e espada, mas sem malha de armadura.» |
| |||
|