Sete ossos e uma maldição 
 Rosa Amanda Strausz



Rosa Amanda Strausz
Sete ossos e uma maldição

il. Ricardo Cunha Lima
Rocco, 2006
118 pp.


O olhar frio e coruscante da bela boneca espanhola não é nada:
o verdadeiro problema é quando ela começa a sorrir para você e, às luzes apagadas, movimentar-se pelo quarto... Objetos raros e estranhos, até mesmo feitos com relíquias humanas, foram guardados nas páginas dos dez contos escritos por Rosa Amanda — como um sopro que se faz sentir ao pé da nuca, ou com mágicos sons de guizos
e vozes que zombam de sua razão ou coragem.
E você nada vê.

Há a mãe que vendia os filhos naquela triste realidade e
no desejo de oferecer-lhes uma vida mais confortável... Rapazes que adentram o cemitério, matitas pereiras atravessando velozmente as ruas pela noite, frutos saborosos de uma velha figueira, casarões onde parece não morar mais ninguém, cômodos fechados e convidados invisíveis, o escuro no alto de uma escada... Mas há a boa sensação de calma — e um grande conforto, quando você se entrega de corpo e alma aos males irremediáveis. É mesmo doce a sorte. Ou
à morte, sem qualquer mácula de sangue ou violência. Qualquer um tem chances preciosas para adivinhar e precipitar-se. São dez contos de desencontros.

E porque a pista certa denuncia o erro, o que reluz é dor
e só mesmo a ignorância poderia livrar-nos de todo o mal,
o texto de Rosa Amanda Strausz tem charme e prumo de galhofa. Assim, o terrível jamais será servido cruamente, elaborando-se com o que existe de mais trivial e, no momento exato, uma descrição retarda os movimentos e
o susto do leitor. Aliás, não são histórias que assustam;
ao contrário, alguns fragmentos são puro encantamento:
“A mesa estava posta para o jantar
com dois pratos de louça florida com as bordas lascadas, uma jarra cheia de um líquido dourado, semelhante a chá, toalha e guardanapos de adamascado branco e amarelo meio puído. Tanto a sala quanto os objetos estavam limpos e arrumados, a toalha passada a ferro e os guardanapos dobrados por dentro de argolas de alpaca.” Sente-se, aquiete-se. A visão aguçada pelos detalhes vai se preenchendo de expectativa que não logra em demorar-se — e arremessar você diante de um sentimento vazio e de algumas incógnitas.

Como não pertence ao estilo fantástico o dom de explicar todos os acontecimentos e conseqüências, evitando assim esclarecer demais o que vinha antes e o que depois seguirá, os personagens ficam pênseis em nossa imaginação. Ou, quando partem dessa para melhor, abandonam o leitor
em meio a um texto que — você tem certeza, se algo afim você nunca ouviu, poderia realmente viver. Nisso está
o segredo do medo. Tem histórias que parecem não acabar e alguns casos, se não passou na televisão, poderia ser desenrolado assim que você abrisse uma porta em que
um pulso desesperado estranhamente preferiu a madeira
a bater à campainha. E Rosa Amanda arma-se das verdades populares, das lendas urbanas, dos clichês que os outros já conhecem, para dar um passo além. Ou para o além.
O destemor deveria trazer a você uma diversão, mas...
Vê agora um corpo debruçado sobre o tapete, seria seu?

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Tratava-se de uma realidade tão perfeita que era consigo mesma que Denise sonhava. Sonhava que estava dormindo em sua casa nova, o lado de seu marido, depois de uma alegre jantar no jardim.
No sonho, experimentava passar o peito do pé de leve sobre o lençol. Ia sentindo a maciez do tecido como um carinho até que seu pé tocasse o corpo de Tiago. Então, voltava para a posição inicial e começava tudo de novo. Deslizar a pele pelo algodão fresco, tocar a perna do marido, recolher o pé.
No entanto, num desses movimentos, esbarrou numa coisa diferente. Em vez da suavidade do tecido ou do calor do corpo de Tiago, seu pé tocou numa superfície áspera e úmida, como um osso recoberto por escamas geladas. Abriu os olhos, sobressaltada, e viu uma criatura sentada em sua cama, entre ela e o marido... »


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