Lúcia Hiratsuka Histórias de Mukashi il. da autora Elementar, 2007 48 pp. Mukashi ôo mukashi... aru tokoroni..., isto é — antigamente, bem antigamente, em algum lugar... Aconteceram coisas fantásticas, como uma jovem raposa transformada em mulher que se casou com um camponês, um rico senhor que desejou comprar o primeiro sonho do ano de um rapaz muito pobre, um barril de arroz que jamais se esgota, um manto que concede a invisibilidade a quem o pode vestir, uma árvore mágica cujas folhas farfalhavam mensagens de alerta, um velho generoso que entrega seu próprio chapéu para cobrir a cabeça de uma estátua... São seis diferentes narrativas japonesas que Lúcia Hiratsuka compila e ilustra no livro Histórias de mukashi, revelando um pouco mais das cores orientais e do pensamento peculiar da cultura tradicional a respeito da felicidade — quase sempre conquistada como uma recompensa pelas boas ações. Por isso, os personagens humanos, mesmo quando envolvidos pelas forças do sobrenatural (característica das lendas), vêem seu próprio destino pautado pelos valores de honestidade, gratidão e obediência aos antigos ensinamentos. Por ter salvo a raposa de um caçador, o camponês encontra em sua vida a esposa zelosa que o faz prosperar. No entanto, a indiscrição do pequeno filho (que descobre seu segredo) resulta na despedida dela, mulher, mãe e raposa, do lar... Se dizem os mais velhos que o primeiro sonho do ano não se pode contar a ninguém, pois será desperdiçada a chance de alcançá-lo, o melhor mesmo é permanecer fiel aos antigos preceitos: nada falar, resistir a todas ofertas e ameaças, mesmo diante de temíveis monstros! Da mesma maneira, não ceder à curiosidade mantém a boa sorte de uma pessoa — e, curiosamente, em quase todas as lendas japonesas, são os homens quem se deixa levar, bem mais que as mulheres, pelo desejo de inteirar-se de segredos alheios... O que é sempre um risco! As outras três histórias do livro pertencem a gêneros narrativos diferentes. Há uma facécia moral que narra como um jovem esperto rouba o manto mágico de um tengu, criatura alada de longo nariz vermelho, e passa a comer da mesa dos outros aldeães... Ao menos, até ser descoberto! No conto "Três irmãos e as peras do mato", como nos contos da tradição européia, o terceiro filho segue o caminho e os conselhos apontadas por uma velha da montanha. Por fim, um apólogo singelo que tematiza a generosidade incondicional: o gesto aparentemente mais tolo e comovente é também o gesto mais caloroso contra a neve e a penúria de um casal solitário na passagem da última noite do ano para um novo amanhecer. |
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