Brian Selznick A invenção de Hugo Cabret il. do autor SM, 2007 534 pp. Todos os relógios da velha estação de Paris jamais param ou atrasam a chegada e a partida dos passageiros. Mas o que muitas pessoas que ali transitam não desconfiam é que a sincronicidade mágica dos ponteiros seja mantida por apenas um garoto — Hugo Cabret. Diariamente, ele percorre passagens secretas e corredores mal iluminados, por trás das paredes da estação de trens, e verifica o mecanismo de cobre de cada relógio. Ele inclina a cabeça para ouvir as batidas, diligentemente, pinga gotas de óleo nas engrenagens e, seguro da cadência regular, segue adiante sem perder um minuto... Com olhos claros e cabelos revoltos, Hugo entra e sai pelos dutos de ventilação, como se fosse invisível. Ninguém o vê, ninguém mesmo perguntaria como é possível a exatidão dos relógios, mas o velho da loja de brinquedos parece mesmo andar a certas desconfianças. Afinal, alma nenhuma de outro mundo viria tão sistematicamente roubar-lhe os pequenos e engenhosos bonecos de corda, graça e movimento... Pois Hugo é o pequeno ladrão. Ele sempre traz em seus bolsos dezenas de pecinhas de metal que retira dos brinquedos e um pequeno caderno de capa puída, cheio de esquemas, desenhos e estranhas invenções — como uma máquina de aparência humana que o menino esconde num dos cômodos secretos da estação! À noite, Cabret se esmera em reconstruir o misterioso autômato, na esperança de revelar a mensagem guardada entre seus mecanismos. No entanto, não sabe por quanto tempo conseguirá manter seus planos... O velho permanece a espreita, fingindo dormir. Ambientada na cidade luz de 1931, A invenção de Hugo Cabret é uma homenagem aos primeiros anos do cinema, na articulação original entre a trama narrativa e sua forma de apresentação aos leitores. Em páginas tintadas de preto, os para-textos do livro são dispostos como em antigos cartazes emoldurados de filmes mudos e, após uma breve introdução, subscrita pelo estranho nome do professor H. Alcofrisbas, os leitores são convidados a imaginarem-se sentados em uma sala escura — a primeira seqüência da história projeta-se inteiramente nas imagens abertas pelas páginas duplas: o olhar compreende os movimentos da câmera e desliza através do zoom que entra pelos cenários parisienses, fecha closes, foca inserts, justapõe cenas pelas viradas no eixo da câmera. Com estratégias de montagem cinematográfica, o quadro seguinte é uma página convencionalmente imprensa como qualquer romance ou novela. Mais do que códigos, Brian Selznick opera com duas expressivas linguagens: é preciso estar atento para o fato de a imagem não se comportar meramente como ilustração, pois suas seqüências funcionam como texto visual, justapostas aos entrechos verbalmente escritos, e assumem diferentes funções narrativas independentes, desde a descrição vertida em informações visuais à gerência e à dilatação do tempo e da atmosfera da história. Com uma feitura intricada, a obra tem sido apresentada ao público como “graphic novel”, ou uma mistura bem sucedida de romance com story-board e picture book. No entanto, não é bem história em quadrinhos, nem livro de imagem com que nos habituamos, e faltam termos claros para definir o mundo de Cabret. Lançado nos Estados Unidos no início deste ano, pela Scholastic Press, o livro conquistou o Quill Award 2007, na categoria literatura para crianças e jovens, com aplausos da crítica e o reconhecimento de uma obra-prima que restaura o glamour da sétima arte em suas páginas. Curioso e emocionante em seu próprio enredo, a narração verbal é conduzida por uma sintaxe muito fácil e fluente, permitindo-nos apostar em leitores a partir dos dez anos: sem qualquer limite de idade, o encantamento dessas invenções e seus ritmos heróicos resultam em um “bom filme” para todos. |
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