André Neves O capitão e a sereia il. do autor Scipione, 2007 40 pp. Marinho tinha um sonho desde muito cedo na vida, carregando-o no nome e na concha de rumores venturosos que o pai lhe dera. Marinho pescava idéias dos confins mais líquidos, desde menino, ouvindo loas que tangiam areias alvas, corais cobertos de histórias, encantos e naufrágios... "Marinho cresceu com aquele oceano enchendo seu coração marujo, mesmo quando andava em terra firme", e o seu caminho, sob o claro calor do sol, se fez por uma embarcação de quatro rodas por cidades e cidadezinhas, onde aportava com a trupe de artistas de um alto sertão. Das mambembadas e folguedos, Marinho compartilhava seu aquário de sonhos e fantasias com o povo, com as crianças encharcadas de curiosidade e com os velhos que esperavam a rede de histórias e alegrias ser estirada. Uma noite, porém, barbas brancas, os monstros marinhos da recordação levantaram ondas e o desejo gigante de fazer quilômetros e quilômetros de estrada em curta passagem para o mar. Enfim, o mar! O mar da princesa dos cabelos escorrendo dos ombros ao infinito azul... Inventando lenda, André Neves amadurece igualmente imagens que estão na textura do seu fraseado e nas ilustrações serenamente exuberantes. Parece mesmo que o autor mergulha por pigmentos e sílabas, manipulando e moldando um contorno brioso, a partir de dentro das palavras e das cores. Há tempos, André nos tem deixado de olhos arregalados e, cada vez mais, tem sensivelmente mergulhado em uma equivalência plástica de sonoridades ricas. Do visual a um relevo tal de estalos e dígrafos na língua, os sons contidos na prosa de O capitão e a sereia oscilam entre guturais-e-nasais profundos e alveolares-palatais molhados, com vogais ecoando ondas, mar e ar. |
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