Em busca do tesouro de Magritte 
 Ricardo Cunha Lima



Ricardo Cunha Lima
Em busca do
tesouro de Magritte


Pinturas de René Magritte
FTD, 1988
88 pp.


Os anjos andam pês-da-vida com o tungão e bruta gigante do Papa-Figos por causa do roubo de um tesouro e decidiram convocar o Nan para resolver a parada. Deram-lhe o endereço e o mapa do interior do castelo onde o menino deveria chegar e entrar e reaver a riqueza roubada, mas — peraí, eles se esqueceram de informar: qual era mesmo o tesouro? E onde o tal castelo ficava? Tem de pegar uma estrada assim e atravessar a Floresta do Contrário? No final, estará o agente secreto Mil-e-Um, com mais informações... Tão secreto que seria impossível reconhecer esse tal de agente mesmo secreto, caso não fosse uma fotografia que os anjos conseguiram no arquivo de Vossa Majestade. Sei. Corretíssimo. E, você, tá me entendendo? Aí, continua... Não, é melhor uma parada na Pensão da Conceição.

Com o estilo irreverente, um narrador conduz os leitores por essa história disparatada em que os quadros do mestre do surrealismo, o pintor belga René Magritte, vão sendo dispostos em meio ao texto. O clima de espionagem revela situações insólitas e, muitas vezes, cômicas — o jantar na Pensão da Conceição é um desses momentos, quando Nan exclama para o garçom: “Moço, tem um olho no meu bife!” e o filezão olhudo pula do prato e corre por entre as mesas.

O que Ricardo Cunha Lima propõe é uma aventura, distante da informação biográfica ou da história da arte, que se utiliza do esquema narrativo dos contos populares de magia: no caminho para o castelo do Papa-Figos, o jovem Nan se transforma em uma formiga e lá entrando, consegue reaver o tesouro que é um... (isso não importa agora) e conhece também uma jovem prisioneira. Há então uma fuga, como acontece quando um príncipe invade a morada do Bicho Manjaléu ou os reinos temíveis de Kotschei. Contudo, o modelo imitado é subvertido ou parodiado, dada a escolha pelas situações surrealistas que nada tem a ver com a magia das fadas, e sim com o non-sense e rompimento da lógica por contigüidade dos velhos contos. É mantendo um traço de pertinência estilística entre seu texto e as imagens do pintor que Cunha Lima consegue criar um novo enredamento — e, mesmo depois de quase vinte anos de sua publicação, o livro irradia um frescor tão próprio da modernidade que se espraiou na literatura infantil e juvenil de duas décadas atrás, no sentido de desobediência aos padrões corriqueiros.

Outros aspectos interessantes da obra dizem respeito à projeção de um narrador intruso, pirado e “o mais teréu-téu-téu de tudo” que convoca o leitor a completar lacunas, escrever um capítulo deixado em branco ou mesmo reordenar os quadros de Magritte a fim de solucionar a sua charada. Desta maneira, os possíveis diálogos da palavra com o universo visual surrealista não se fecham a uma única voz, a do próprio autor, ao mesmo tempo evidenciando de que se trata tudo de um arranjo, uma combinação, uma divertida tramóia. Afinal, atenção, quem disse que as coisas aconteceram como os anjos contaram? Nan e o leitor têm um caminho, Dali ou de lá, para descobrir.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


Prêmio Orígenes Lessa e Altamente Recomendável para Jovens - FNLIJ 1988 Prêmio APCA 1989
para Autor Revelação

« O mais confuso em
Pajé Monã é que não se pode saber qual a pomba que fala a verdade e qual a mentirosa, pois as duas são iguaizinhas; até hoje ninguém conseguiu perceber qual delas é boa e qual não. O Nan se aproximou e sentou numa pedra diante do pajé. Fez uma tonelada de cumprimentos e salamaleques, muito-prazer-é-uma-honra, pediu a benção e a seguir perguntou que caminho deveria tomar para encontrar o gigante Papa-Figo.
Ambas as pombas apontaram para uma encruzilhada distante, de onde saíam dois caminhos: a estrada DALI e a estrada DE LÁ. »

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