Nilson Moulin e Rubens Matuck Leonardo desde Vinci Cortez, 2007 96 pp.
Para reencontrar um Leonardo próprio, singular e humano, dois amigos partiram para a comuna de Vinci, na Itália, buscando pistas na paisagem e na história daquela região toscana, pois sabiam de antemão que os museus e centros de estudo contemporâneos o têm reinventado como um arquétipo da genialidade para o turismo acadêmico e cultural. Eles desejavam outro Leonardo, conhecedores do desafio que é rastrear o poliédrico perfil do arquiteto, escultor, músico, paisagista, pintor, urbanista — dos muitos criadores que viveram em um só homem. Um outro Leonardo que começou a vida como todos nós: nascendo e foi transformado pela “paleta de Cronos” em menino, rapaz, artista maduro... Os dois amigos, Nilson Moulin e Rubens Matuck, nas três viagens que empreenderam e nas muitas leituras por onde viajaram, partilhavam uma certeza: observar os lugares da natureza e os construídos pelo homem, atravessando talvez o mesmo caminho entre colinas e colunas do personagem que buscavam. Se sempre “o livro do mundo oferecia uma nova página à biblioteca de Leonardo”, tornou-se imperativo nela adentrar para viver a experiência de adivinhar as emoções e as lembranças de certo Leonardo — aquele que poderia descobrir-se, por empatia. Desde Vinci.
Como Leonardo, que viveu um tempo quando as informações passavam da sombra à luz, dotando o conhecimento de novas perspectivas, o leitor de hoje converge ao espelho virtual de textos milenares “num grande caleidoscópio tridimensional onde cada novo nó e nexo pode conter uma outra grande rede numa outra dimensão”. Assim, o feitio do livro que abrimos — Leonardo desde Vinci — tem uma qualidade e uma estrutura tais que o configuram como um feature: um documentário complexo em que a informação não se fecha sobre si mesma ou sobre a funcionalidade imediata dos textos que o compõem (são muitos os recortes: traduções, trechos literários, verbetes, aforismos, descrições, vozes e fragmentos do passado), mas produzem uma con-formação dramática e narrativa. Perseguimos Leonardo e as impressões que ele deixou e outras que deixaram a respeito de sua figura e seu mundo. E como os próprios cadernos com anotações de Leonardo, o livro de Nilson e Matuck é um outro códice de pistas sobre os descaminhos percorridos pelos dois autores: é um roteiro de viagens por entre cidades e citações, mas não uma obra acabada, ou um destino alcançado. Eis o modo heróico que nos tira do tédio: Os textos informativos, as biografias de personalidades históricas, as descrições de paisagens, os extratos de outros autores, os poemas e as narrativas que se intercalam a fotografias, croquis, aquarelas, mapas — tudo cria uma excitação para a aventura entre diferentes registros que possuem apenas um ponto em comum: a precisão da linguagem em dar um ritmo à atividade arqueológica de escavar e construir as evidências do desígnio humano. Revivendo a aprendizagem de Leonardo, Moulin e Rubens oferecem uma narratividade especular, potencial e investigativa para a imaginação do leitor. As antigas emoções, das quais a sensibilidade contemporânea sente-se muita vezes carente, os autores as religam de maneira vívida. Imitando, eles também inventam e ensinam que há, no trajeto, visões e vínculos que não nos escapam se descobrirmos urgências como ad-mirar. |
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