Mike Jolley Grunter, a história de um porco insuportável il. Deborah Allwright trad. Gilda de Aquino Brinque-Book, 1998 28 pp. Podemos definir "espírito de porco" por um elenco de qualidades poucos lisonjeiras, ou por um simples nome: Grunter. Pois esta é sua sujeira, digo, a porcaria de sua história: em uma pequena fazenda verde, existe um grande problema cor-de-rosa. Glutão e balofo, mal educado e até mesmo perigoso, Grunter é um verdadeiro animal (com o perdão dos outros bichos, ele é um animal nos dois sentidos!) que detesta tudo e todos. Só por uma questão de decoro, estou proibido de escrever aqui as baixarias que ele apronta, mas digo: trata-se de um fedorento que adora a fazer maldades. E ele faz! Até que chega um dia e os animais da fazenda decidem que Grunter passou dos limites e merece uma lição. A vaca, o cão, o pato, o rato, o carneiro, o bode e as galinhas, enfim, todas as vítimas armam o ti-ti-ti do ti-ti-ti e... Bem feito para ele! Justo no dia do aniversário do Grunter. Como ele se sentiu sozinho!!! Sim, esta é mais uma fabulinha moderna e a moral da história poderia ser: Quem demais come tortas, bem torto há de ficar, hua, hua, hua... Pensando bem, acho que nunca ouvi nada assim e, como toda a fábula, a história de Grunter também merece um pouco de desconfiança: durante anos em que acompanhei adultos lendo e ouvindo a narrativa, sempre alguém levantava a mão e perguntava se seria correto estimular (óinc, óinc, óinc) um espírito de vingança :-0 Ocorria-me lembrar a ambiguidade presente em muitas fábulas, desde suas formas mais antigas e que algumas adaptações "para crianças" ainda preservam, ou puxar da memória o uso mais prosaico da Lei do talião. Talvez, somos nós que estamos no limite: no limite do demasiado policiamento ;-) A obra com texto de Mike Jolley e ilustrações de Deborah Allwright traz, além de seu aspecto narrativo, delícias do jogo palavra&imagem, acrestando pela exploração do suporte-material, o livro. Assim que o abrimos, encontramos a página onde se estampam os créditos editoriais e a ficha catalográfica, juntamente com a página de rosto, emporcalhada com as pegadas melecadas do Grunter. O registro verbal é estapado em uma tipografia trabalhada com diferentes tamanhos, em cinza e preto intercalando-se. Por sua vez, muito do que ficamos sabendo da história está contido nas ilustrações que, ora usam enquadramentos de cinema, ora de elementos de história em quadrinhos, tudo muito ajeitado num ritmo acelerado. Os animais são bem caracterizados em suas reações diante da ameaça rósea e, ao mesmo tempo em que o porco é imundo, ele tem curiosamente dois band-aids cruzados na bochecha e um dos seus olhos parece estar manchado com um hematoma. Ora, se Grunter bate, ele também leva... Hilária é a seqüência de páginas que mostra o nosso Grunter, em primeiro plano, com seu focinho de pouco amigos e o cenho fechado; ao fundo, vemos flores azuis e um pássaro assobiante equilibrando num muro. O narrador informa: "Ele tem um péssimo gênio..." — viramos a página para seguir a sentença — "... e não se cansa de fazer maldades!" A cena é praticamente a mesma, não fossem alguns pequenos detalhes: flores com as hastes pendentes pro chão, o passarinho zorózinho derrubado sobre o gramado (porém, o muro permanece de pé) e o Grunter, ó Grunter, com aquela carinha fofa de alívio e satisfação. Precisa dizer o que ele fez? Mas o ponto-alto do livro é literalmente o relevo de dobraduras que se levanta, quando Grunter vai soprar as velinhas de seu bolo aniversário. Ou, pelo menos, era isso o que ele pensava... (Ah, merecia uma fotografia aqui.) E, depois, quem pensa que a história está acabando, engana-se: os paratextos da última página e da quarta capa aumentam o volume das risadas. |
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