Luiz Antônio Aguiar Sonhos em amarelo Melhoramentos, 2007 128 pp. No inverno de 1888, ele chegou a Arles e inquietamente passou a aguardar pelas cores da região provençal, ainda sem calcular a temporada de quatro estações que ali viveria. Figura difícil, o Ruivo Louco, como muitos passariam a tratá-lo, despertava curiosidade e rancor entre as pessoas da pequena cidade: um forasteiro, diziam, era o que ele era, um holandês desterrado... Assim, poucos se atreviam ou sentiam-se a vontade para conversar com ele e, entre esses poucos, estava o chefe postal da estação de trem que sempre tinha uma carta ou encomenda para entregar ao pintor.
Luiz Antonio Aguiar celebra a tímida aproximação do menino ao grande gênio da pintura impressionista, recortando um período muito especial de sua vida, no sul da França — em que, estudando e recriando a luz e o grão de novas cores em suas telas, recriou também Arles aos olhos dos próprios moradores daquela região portuária e rural. De modo análogo, a centena de cartas que Van Gogh escreveu nesse período permitiram uma dezena de biografias e suposições a respeito de sua vida em um mundo em que ele mesmo parecia não pertencer. Porque Vincent estava sempre lá, do lado de dentro de suas próprias criações. É toda a sensação de abismo e descobertas que o escritor brasileiro re-encena ao dar palavra à experiência de Camille, que não é apenas um expectador, mas um pouco de todos nós diante dos campos que amanhecem com os mais amarelos dos grãos sonhados por Vincent. "Nunca me perguntei, e tampouco hoje adiantaria me perguntar, se gostava do Sr. Van Gogh. Creio que recearia tê-lo como amigo [...] tenho necessidade de resguardo e temor de me aproximar de quem carece demais de alguém para si", confessa o personagem no capítulo que traz o verão de seus primeiros contatos com o pintor. Uma página mais adiante e, particularmente, ouço a brisa de uma canção anunciando segredos entre girassóis e estrelas. A novela de Luiz Antonio não narra propriamente a convivência de um menino com o pintor, mas a história de amizade entre Joseph Roulin e Van Gogh, da qual Camille foi testemunha. Narrado em primeira pessoa, o texto é aberto por uma carta dele para Marcelle, a irmã mais nova que nasceria nos meses distantes de 1888. Sabemos, com esse expediente, que Camille está prestes a marchar para um frontão da Grande Guerra e propõe-se a compartilhar os diferentes fatos que amadureceram em sua infância. Nessas oito páginas, no entanto, o texto de Aguiar não engrena naturalmente e arrisca a perder o interesse do leitor — pois, somente ao longo dos quatro capítulos, o cotidiano e as emoções dos personagens começam a desprender-se do papel e mesclam-se à visualidade e ao ritmo das cenas. Assim como é bonita a transformação da implicância quase áspera de Augustine em sentimento de respeito e simpatia pelo pintor, ou contagiante a alegria de Joseph ao descobrir-se mais digno em seu uniforme azul, ao ser retrato pela admiração do artista a ele, torna-se insuportável (também para nós) a presença carismática de Gauguin nas noites de Arles — e o turbilhão da noite de 23 de dezembro ainda virá nos surpreender. Embora o livro não contenha a reprodução dos quadros de Van Gogh, suas pinturas são evocadas nas descrições — em ecfrases personalizadas do autor — que nutrem uma curiosidade ímpar de perseguir outros sonhos em amarelo. Ao procurar os quadros, revejo as paisagens e os personagens que o texto descortinou — e o outro Camille, para quem Luiz Antonio Aguiar criou um sonho especial. |
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