Leo e Albertina 
 Christine Davenier



Christine Davenier
Leo e Albertina

il. da autora
trad. Gilda Aquino
Brinque-Book, 1998
36 pp.


Tudo ia bem
na boa vida de Leo
até ele se apaixonar por Albertina: e vejam só o desânimo nos ombros do porco, as orelhas murchas, a fuça franzida e o rabo estirado sem nem fazer jon-bori-jorori... * Tudo vai mal, muito mal, porque ele não sabe o que fazer para chamar a atenção da galinha — que vai lá adiante nos passinhos empinados de nem-te-ligo! E Leo toma conselho dos amigos:
o galo o manda cantar,
o coelho manda dançar,
o peru o manda desemporcalhar...
(Ah, esse peru se acha!)
Depois vem o touro, depois vem o pato.
Alguma coisa adiantou?

Nada de fato — e aí está a graça deste livro ilustrado.
Para dar conta da história, que começa num ritmo ligeiro de lengalenga, o verbal e o visual se complementam em um só texto — e, a cada parelha de páginas, uma cena diferente acontece. Assim, temos um conselho aqui e vemos uma tentativa ali: o esforço do Leo é representado fortemente pela ilustração de traços e pinceladas muito ágeis que também mostram toda a pressa da Albertina em desviar-se do caminho do porco, como se tivesse algo mais importante em sua mente, distraidíssima ou concentradinha nas coisas que são de seu hábito: bicar grãos e minhocas na terra...
Pode até cair um pedaço do céu em sua cabeça que ela nem vai perceber (Ou será que vai? Mas esta já é outra história!). No entanto,
esteja talvez aí, nesse jeito de fazer as coisas que se sabe fazer, uma pista para o pobre apaixonado! "Não adianta", choraminga Leo. "Já tentei de tudo. Albertina nunca vai reparar em mim. Vou-me embora." E justamente nesse instante, Leo ouve o melhor conselho que apenas um porco poderia dar a outro...

Como as modernas histórias de animais
são herdeiras da tradição das fábulas,
também há aqui uma clara e simples lição: não tente ser diferente do que você é para conquistar a estima dos outros. Mas, sabendo que a moral da história muitas vezes é um efeito de sentido produzido pela leitura — e, por isso, negociável, por que não intertextualizá-la de uma vez?

Quem um dia irá dizer que existe razão
nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer que não existe razão?

Faz sentido?

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura






* jon-bori-jorori
este é o som que faz o rabo dos porquinhos quando se enrolam ;-)

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