Como me tornei Marc Chagall 
 Bimba Landmann


Bimba Landmann
Como me tornei
Marc Chagall


trad. Mônica Esmanhotto
il. da autora
Edições SM, 2006
48 pp.


Cabras que voam, e luas, anjos, violinistas sobre o telhado. Homens de rosto verde, gatos com rosto de gente e gente com duplo rosto. Noivos que nunca tocam o chão. Estranhas são as visões que Marc Chagall tem do mundo a partir das referências e dos primeiros sonhos cultivados em Vitebsk... Um dia, ele desejou ser cantor, mas porque aprendera a tocar alguma coisa no violino, desejou ser músico e, depois, bailarino e, depois... Nem mesmo ele sabia por onde ir e começar! No bairro judeu onde nascera, o menino Moshe precisava das lições do rabino, mas preferia olhar as galinhas, um berço pendurado no alto do teto e a cabra (ah, as cabras) que enfiava a cabeça pela porta!

Em um texto narrado em primeira pessoa, Moshe conta como se tornou Marc Chagall. Das lições em hebraico à rejeição à escola, às letras, aos exercícios de cópia de estátuas gregas, às paisagens monótonas e à paleta de cores sempre iguais e naturalistas! Muito de tudo e da ordem do mundo era preciso negar para chegar a ser alguém realmente notável pelas riquezas (e estranhezas) que carrega dentro de si. Moshe tinha um ímpeto selvagem e o caminho não fora nada fácil: todavia, o persistente menino tornou-se um rapaz ainda mais determinado. E viajando cidades, pintando em São Petersburgo, pintando em Paris, Chagall encontrou o grupo de artistas, poetas e outros pintores, que também buscava por uma nova ótica e uma nova estética para a representar a percepção que tinham do mundo.

A ilustradora italiana Bimba Landmann é também
a autora do texto e escreve com tal magia e convencimento a história de Marc Chagall que o leitor facilmente mergulha no céu azul que reveste a memória do pequeno e grande Moshe. É uma vida que aqui se conta, narrativamente. As descrições são detalhadas e ritmadas, como são as ilustrações: montagens de desenhos recortados e objetos moldados, bonecos, casas de papelão e lã de vidro que parecem se desfazer como fumaça das chaminés, e velas acesas, e papéis pintados reproduzindo quadros, e uma infinidade de texturas fotografadas em caixas-molduras de madureira. Respeitando o clima surrealista das imagens do pintor, Chagall está sempre ali, com o cabelo enevoado e azul.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Depois das últimas orações, todos dormiam. Todos, menos eu. Queria andar no telhado. Adorava subir lá. Por que não? Até vovô subia para comer cenouras. Sobre o telhado, tinha a lua. O ar azul. E minhas estrelas. Sobre o telhado, podia sonhar e fantasiar, imaginar o que faria quando crescesse. Certamente, não seria trabalhador braçal como papai, que passava os dias transportando pesados barris de arenque. Muito menos açougueiro como vovô, ou barbeiro como tio Zoussy. Não.
Sonhava com um futuro luminoso... Sonhava em ser famoso. »



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