Bérénice Capatti Com vocês, Klimt! trad. Mônica Esmanhotto il. Octavia Monaco Edições SM, 2006 48 pp. Gustav Klimt parece nunca ter tido afeição ou intimidade com as palavras. Assim, quem mais estaria apto a contar sua história a não ser seu primeiro gato? Arguto e sempre disposto a receber um carinho perfumado das mulheres que iam ao ateliê posar, modernamente vestidas ou nuas, ele também estava habituado ao cheiro de tinta, óleo e solvente entrando pelas narinas... E é quem concede espaço para um visitante especial, de quem Klimt nem perceberá a presença durante as horas em que permanece entretido com sua arte. “É sempre assim quando ele se senta em frente ao cavalete: só existem as tintas e a tela.” Quem é o especial convidado do primeiro gato de Klimt? O leitor? Não, outro gato. As ilustrações de Octavia Monaco montam um espetáculo para os olhos mais exigentes, mesclando materiais, texturas e tintas, colagens fotográficas e folheados dourados, apropriando-se das figuras do pintor austríaco e algo de seu estilo, formas e cores — principalmente o gosto pelos padrões de “infinitas pecinhas” —, criando páginas de grande impacto visual. Duas merecem destaque. A primeira delas mostra o barbudo e rubro Klimt, com sua folgada túnica sem colarinho, cortando rosas no jardim de sua casa: o céu da manhã é realmente dourado com nuvens vermelhas onde vemos cenas de seu passado, como os personagens familiares ou o teatro de Viena. Há também a bonita ilustração que representa o pintor nas férias de verão no lago Attersee: no movimento azul das águas, surgem rostos e braços ondulantes de ninfas; o gato estira seu corpo em curva, pênsil entre o barco e as ondas; mas o “núcleo” da imagem que captura toda a atenção é a pequena moldura de marfim, um quadrado branco e vazado nas mãos de Klimt. Monaco livremente recria os modelos e as ornamentações oníricas do mestre. O texto, narrado em primeira “pessoa” pelo primeiro gato de Klimt, enumera episódios e idiossincrasias da vida do pintor em um relato mais próximo da crônica que prescinde de uma estrutura narrativa: verdadeiramente, não há um mínimo conflito, nem um entusiasmado clímax. Como parece vir do original italiano (Vi presento Klimt), de Bérénice Capatti, o constante uso do presente do indicativo aplaina os “relevos” do tempo, apagando os contrastes de figura e fundo que seriam tão preciosos no texto quanto às reentrâncias e perspectivas vistas na ilustração.
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