Iberê menino 
 André Neves e Christina Dias



André Neves e
Christina Dias
Iberê menino

DCL, 2007
48 pp.


As mãos e os olhos de um artista podem revelar a criança que foi e ainda habita seu íntimo: quando sente saudades, fala do tempo que passou e os detalhes não esquecidos, por vezes, transformam-se em imagens que, se não são fiéis à infância, ao menos, compartilham sua memória. Este pensamento agora se forma diante de minhas retinas confrontadas com a homenagem de André Neves e Christina Dias a Iberê Camargo.

Iberê menino conversava
com os silêncios do escuro, sabe-se lá que segredos espectrais. A mãe costurava e ele descobriria, assim como a terra, que os carretéis giravam em brincadeira, desenrolando linhas... Havia o pai e a presença da fumaça e dos sons do trem — mais a saudade que cada despedida despertava.
Os crepúsculos de Iberê eram tristes, mesmo que a paisagem chamasse o menino para o refúgio das cores e dos leves traços da vida que brota, salpica, ofusca e transita. As quatro estações percorrendo a natureza lhe ensinariam a procurar os detalhes e apreciar "coisas que olhos comuns precisam treinar para ver". Iberê menino enxergava caudaloso.

A quatro mãos, André e Christina cosem
um texto iluminado de poesia que, com sugestões e sonoridades, contrasta com as gravuras e pinturas de Iberê Camargo. Sempre tão escuras, as telas emitem um estranho chamamento: as reminiscências que o artista legou em gestos figurativos e expressionistas mostram-se despovoadas de esperança, são como lembranças dolorosas de um tempo que ele não mais pode alinhavar com o presente tumultuado de sua vida. No entanto, como são narradas, as descobertas sensíveis de Iberê menino transcendem a velha tristeza, transformando o passado em um conto de imagens mais leves, passíveis de inspirar um sorriso e uma sabedoria que escorregam pelos reflexos de uma antiga penumbra. É um texto que põe em movimento a magia que o pintor imobilizou em linhas e camadas de tinta.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« O tempo com Bua era manso. Com mimos, canções e lindas histórias. Bua levava a noite dentro dos olhos, nos cabelos, no sorriso. A noite se espelhava no seu corpo inteiro. Sentada, a balançar, ela alongava os braços e abraçava o Iberê menino. A noite chegava embalada de acalantos nos seus olhos pequeninos, miúdos de tanto sono.
Antes mesmo de a lua sorrir gloriosa e o céu quebrar um colar de diamantes na escuridão, Iberê menino adormecia com os olhos cheios de luz. Bua era assim, lustrava o brilho que só as coisas escuras têm. »


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