Raquel Nader De alfaias a zabumbas il. Rosinha Campos Paulinas, 2007 40 pp. Pernambuco tem o orgulho de ser o único estado brasileiro com 10 letras que não se repetem em seu nome. Quem contou isso foi Rosinha Campos fazendo-me parar um segundo para contar nos dedos: de fato, são dez. E Pernambuco tem ainda o maracatu que nenhum outro lugar tem como Pernambuco tem: som marcado pela percussão com toques de instrumentos de diferentes tamanhos e vibrações, como caixas e taróis, alfaias e zabumbas, bases desse baque bom, como sugere o título desta coleção de poemas bastante livres e irregulares de Raquel Nader. E a percussão miúda e mais cintilante do maracatu fica por conta dos ganzás e dos gonguês. Foi brincando com as 23 letras do alfabeto que a autora tomou partido para arranjar o vocabulário típico de lá através de 23 poemas, cujos versos são sempre iniciados com a mesma letra. Às vezes, as palavras de todo um verso têm também a mesma inicial. Às vezes, não: Abadá Agogô Adereço / Apitos pra começar. Ou então: Bailam, bonitas baianas, / Beijando a lua que raia. O ritmo vai caindo constantemente para o começo de cada verso, estende-se por algumas repetições, bem pouco sobrando para a rima... Tal efeito vai criando uma instabilidade para o ouvido que só mesmo se acomoda pelas anáforas (quem?) iterativas, isto é, palavras ou expressões que se repetem, repetem como Gotas de contas / Gotas de som... som do ganzá. / Ganzá de folha-de-flandres / Ganzá, oiê, oiá! Depois de lidos os poemas, chega-me um incômodo que não vem da linguagem, mas do desconhecimento certeiro deste mundo rítmico de baque solto e virado. É um livro realmente bonito que tem as ilustrações de Rosinha Campos, recortando em silhuetas vazadas as figuras do cortejo pernambucano: lanceiros, baianas, pagens, mateus, príncipe e princesa, rei e rainha, orixás. Referenciada no repertório visual deste folguedo popular, Vidrilho, canutilho, lantejoula, / Viagem da vida em cores / Vestindo o traje do brincante Rosinha optou pelo tecido florido de chita para mostrar o colorido das roupas; ao fundo das "personagens" que posam ao lado dos poemas, ela aplicou o mesmo padrão esmaecido. |
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