Não chore ainda não 
 Rogério Andrade Barbosa



Rogério Andrade Barbosa
Não chore ainda não

il. Ciça Fittipaldi
Larousse, 2007
24 pp.


«Os idosos são os que contam melhor, pois
já escutaram mais.» — diz um provérbio africano e sua verdade areja os diversos usos que os povos deram à fábula, gênero que significa o próprio falar ou mais, intimamente,
a intenção de falar e narrar, contar uma história. Também é assim que são abertas as páginas de Não chore ainda não, preparando-nos desde o título, a fim de recebermos
um sábio conselho e deixarmos as lágrimas para depois...
Depois d'o quê?

O entrecho narrativo é bem simples e conta
a respeito de um batráquio chamado saltão, apreciado
como alimento na ilha de Bubaque, na Guiné-Bissau, capturado pelas mulheres e levado embora para a aldeia. Atrás delas, a esposa do saltão vai saltando
e pensando em como salvá-lo, mas vai o tempo todo se lastimando e chorando. O marido responde diversas vezes: você só deve chorar quando sentir meu cheiro no assado.

Rogério Andrade Barbosa expande a fábula
com a descrição das cores e dos costumes locais, duplicando, de quando em quando, o seu falar com o voculário e
frases em crioulo, uma mistura da língua portuguesa com os diferentes idiomas guinenses. Ouvimos assim, por aqueles caminhos que levam à tribo, alguns animais típicos, como pássaros e aves, uma serpente ou uma hiena, perguntarem: Que qui minjer di salton na tchora? Isto é:
por que a mulher do saltão está chorando?

As ilustrações de Ciça Fittipaldi são outra sorte de aprendizagem, uma lição de projeto gráfico para o olhar que salta pelo caminho das páginas, da esquerda para a direita. Mulheres negras vestidas com saiotes de fibras de cascas de árvore, peixes vermelhos, borboletas com grafismos nas asas bem ao gosto kamaiurá, águas de intenso verde e azul... Todas as figuras que se movimentam, conduzem
o leitor adiante em uma aventura contínua.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Quando a maré baixa retira suas águas das praias que circundam a ilha de Bubaque, surgem as mulheres das aldeias. As minjeris, com seus balaios na cabeça, correm para pegar os peixes miúdos que se debatem nas malhas das redes dos pescadores.
Um dos
alimentos preferidos é uma espécie de batráquio, de olhos salientes e cauda alongada, que se refugia entre as pedras submersas e se locomove, aos saltos, na areia. Daí
o seu nome: saltão. »


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