A alegria aquece as horas 
 Lenice Gomes



Lenice Gomes
A alegria aquece as horas

il. Elma
Cortez, 2006
24 pp.


De outros tempos,
Lenice Gomes convoca
o circo e a ciranda para compor um só espaço de malabarismo e serenata, de rua e memória. Como o próprio personagem, Vitalino, o palhaço, ela chega deslizando na purpurina de muitos versos que espalham saudades, ecos felizes e verdadeiras adivinhas
para os leitores: afinal, quando ouvi, onde li, quem cantou
este verso, essa marchinha, aquele letreiro popular?

Pois a narração da autora pernambucana é um festival de
recortados, quase sempre no toque ligeiro de embolada: múltiplas vozes se fazem ouvir como fitas presas
a uma bola que gira-gira e gira em suas mãos. Assim, conheci e ouvi Lenice falar, para lá de uma estripulia de quase dez anos (1998?) e sempre que a reencontro em livro, livro os sons do silêncio de papel para imaginá-la contar. Há, no entanto, aqui, um estribilho de melancolia...

E temos, por ora, o anúncio de um circo,
em sua passagem pelas ruas de uma pequena cidade perdida entre o sonho e a memória. A multidão freve na mesma sintonia dos versos de Vitalino, uma só clarinada de alegria. Mas o coração de Carmim é trapezista, dá vôos sem asas
no ar — e o texto dá fresta para o mágico Viravoltas
fazer seu número, sem que ninguém veja, nem saiba,
o que aconteceu depois — entre os sons da charanga que começa a tocar: Vai, vai, vai começar a brincadeira!

Cores de Elma aquecem os brincantes, fazendo ciranda com elementos diversos do maracatu, reis, criolas, rapunzéis e outras folias que acendem a festa noturna pelas ruas do imaginário popular. O bonechucho Vitalino chega das bandas do cavalo-marinho, montado em seu boizinho de ripa e chita, sombrinha na mão, chapéu de mateus por entre lampiões.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Ouvindo a música, surge na janela uma moça. Ela suspende
o véu de renda de Angola que lhe oculta o rosto, realçando sua pele. Vitalino,
diante do revelado,
não disfarça a supresa.
A beleza da moça desenha mais encanto em sua face. Ela, de forma clara, acalentando sonho guardando, canta:

Sozinha eu não fico
E nem ei de ficar
Pois tenho certo palhaço
Para ser meu par.
»



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