Lebre que é lebre não mia 
 Celso Sisto



Celso Sisto
Lebre que é lebre
não mia


il. do autor
Larousse, 2007
40 pp.


Cada cultura
sempre elegeu
um animal para personificar as qualidades de espertalhão, como a velha raposa européia e a raposa japonesa dada às transformações, o jabuti de muitas tribos indígenas,
o macaco tão brasileiro e cadinho de muitas tradições.
Aparentada do tio conejo porto-riquenho, para alguns povos do continente africano, o mais esperto animal da natureza é mesmo a lebre. E o que ela não tem em força ou tamanho, tem de sobra em astúcia e — diga-se já —
uma tremendíssima de uma cara-de-pau. Por esse motivo,
as histórias que o escritor Celso Sisto reconta são daquelas que, no expediente, embutem o riso como solução.

Dalgum ponto da África Ocidental vêm duas histórias. Na primeira, a lebre, ai que preguiça, deseja plantar e colher, mas preparar a terra... não. Assim, inventa uma disputa com o elefante para ver quem é o mais forte e entrega a ele a ponta de um corda! A gente já sabe onde isso vai dar: do outro lado do cabo-de-guerra, outro peso-pesado, o hipopótamo. Mas fora zoar com a paciência alheia, tudo isso é uma estratégia para arar a terra da lebre. Em outro episódio, um conto que encerra o livro, a lebre faz um pedido bem dos seus para o grande gênio do bosque. Dá para pensar?

A segunda história da lépida tetralogia de Celso vem
do sul daquele país e é uma narrativa da cultura xhosa.
Com alguma semelhança com o cabra-cabrês português, vemos uma figura fabulosa chamada inkalimeva que, sordidamente, assalta o depósito dos animais e papa todo o pote de gordura às custas da vida da sentinela que é sacrifcado pelos outros, tão logo se descubra o logro. Finalmente, a lebre é convocada para este trabalho ingrato... Mas não é mole, não, porque lebre que é lebre, não mia!

Abusada e hilária, na história que vem da Etiópia, a lebre salva o próprio pêlo das garras do leão e o convence a uma mal-intencionada parceria: e dois saem juntos para caçar.

Celso Sisto escreve estas narrativas com o ânimo de um contador de histórias. Assim, ninguém estranhe seu estilo esfuziante e a página impressa salpicada por pontos de interrogação! E ele também ilustrou o livro com imagens de acentuado apelo plástico, nas quais combina técnicas e materiais, colagens e tintas, recortes e contornos, exuberância e cores vivas.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« A lebre se foi!
E, depois de ter caminhado até não poder mais, chegou a um poço
e fez uma parada para descansar. O sol já estava se pondo, e os animais vinham até ali para beber água. O tigre, o búfalo,
o elefante, a tartaruga... todos vinha beber água naquele tanque!
Bebiam, bebiam e seguiam caminho.
E assim foi, até que
o sol se escondeu por completo.
A lebre ainda
não estava recuperada
do cansaço e deixou-se ficar um pouco mais. Sozinha, junto do poço
e na sombra da noite,
ela certamente
pensaria melhor.
De repente... »


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