O fantástico mundo do cordel 
 Arlene Holanda



Arlene Holanda
O fantástico mundo do cordel

il. da autora
Ed. Demócrito Rocha, 2006
32 pp.


Gabriel tem lá não sei
quantos anos de menino e passa as férias na companhia dos avós na fazenda do Ingazeiro. Os primos decidiram não aparecer naquela temporada e todos os games que trouxera, logo, se acabam. Como a curiosidade move o mundo, Gabriel descobre entre os guardados do avô, um outro mundo
tão "legal" e cheio de aventuras como os jogos de RPG que ele bem conhece. Foi pegar um livrinho de papel amarelado
e pronto: entrou por uma porta e saiu pela outra
como um pequeno fã das aventuras de cordel.

A partir deste entrecho narrativo e familiar, a autora
Arlene Holanda introduz as conversas entre avô e neto
sobre o cordel, seus poetas e os melhores enredos.
Logo vemos tratar-se de uma pequena obra informativa
que a ficcionalidade emoldura e pontua — uma estratégia que sempre deita dúvidas a respeito das fronteiras da produção convencionalmente chamada literatura e, em especial, literatura para crianças. Mas, de forma leve e fluente, aqui
o texto progride sobre um mundo realmente fantástico a ser conhecido e vai além do mero verbete enciclopédico, pois
os meandros da literatura de cordel também nos tocam
como história do livro, da leitura e dos leitores.

Nomes de poetas populares importantes, de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, João Camelo
ou do tipógrafo-cordelista José Bernardo da Silva, são
postos em diálogo com Shakespeare, Cervantes, Suassana
e suas proeminentes obras. Ariano Suassuna, em particular, faz parte do repertório de Gabriel, claro, uma ficcionalização
do leitor-modelo quando criança ;-) graças ao recente audiovisual de O auto da compadecida. Também nenhuma barreira ou desconfiança se ergue à frente de outras mídias ou formas expressivas. O que se prova (em duplo sentido) é
a continuidade e a porosidade da matéria literária em absorver e ser absorvida por variados códigos e linguagens. As fronteiras re-fluem. E, — se o texto de Arlene Holanda exalta o patrimônio cultural do passado, o faz sem pontas de falsa saudade e sem depreciar a urgência do novo:
é tranquilizador comprovar uma tradição que nos mantém apenas porque está viva em sucessivas transformações.

Resta ainda considerar se a estratégia à ficção,
ela mesma, não seria certo capricho de bom exemplo
fincado na tradição da literatura formativa para crianças.
Que Flaubert possa me perdoar: Gabriel somos nós?
Mas esta conversa fica para outra hora.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« O olhar de Gabriel passou uma varredura pela sala e não encontrou nada interessante. Cadeiras de couro, brasões e retratos de antepassados não despertaram sua atenção. Quem sabe no quarto
ao lado, onde o avô guardava um monte
de velharias?
— Velharias
não, relíquias! E ninguém tem autorização
para entar aqui... »
« Hoje
as pessoas estão redescobrindo o cordel, porque estão entendendo melhor que somos
mais fortes quando valorizamos as nossas tradições culturais.
Tem cordel
pra vender
nas bancas de revistas, ao lado dos jogos eletrônicos e quadrinhos estrangeiros. »




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