Adeus conto de fadas 
 Leonardo Brasiliense



Leonardo Brasiliense
Adeus conto de fadas
(minicontos juvenis)

7 Letras, 2006
84 pp.


É hora de todos os
perigos e alarmes adolescentes, nossa vida por um triz:
com a primeira brincadeira debaixo das cobertas, ou
quase isso, as medidas comparadas no vestiário, o destemor diante das pequenas mentiras, o horóscopo que a gente lê e não dá trela, mais as contradições que o dia-a-dia vai
transformando na descoberta de que "ser criança era moleza". Aos 12 ou 16 anos, cremos que nossa vida não tenha ainda passado um passado, o tempo não adquiriu relevo suficiente, nem responsabilidades. É sempre agora, história sem memória, só alegria e tragédia grega ;-)
Mas de repente, ele chega e empata a parada: crescemos.

Os minicontos de Leonardo Brasiliense vivem
pela pulsação de um fotograma, série de mínimos minutos que não precisam mais do que meia página
para serem íntegros e integrais. Sua linguagem breve e intensa, ao modo de um telégrafo literário, vai pontuando de humor, ironia e sarcasmo toda a matéria narrativa que
a literatura juvenil mais convencional pasteurizou e embrulhou para os jovens leitores. O autor não estende
seu discurso pelas vielas e atalhos de um moralismo bem comportado; ao contrário, registra à face da palavra
tudo aquilo que é como é — e resulta, para quem é a fim de um debate, em qualidade estética de encontro à ética.*

Eu mesmo me pergunto como o autor conseguiu
esse efeito. Serão as descrições exatas,
as imagens claras das situações? Uma narratividade
construída de implícitos que nos fazem cúmplices?
Certa dose de suspense, o ritmo que não perde tempo,
a quebra de expectativas? Enfim, esfinge,
o humor se prega em nós como sorriso de monalisa.

E veja lá: se a literatura impõe
um processo de identificação, como se estivéssemos
no sofá da sala de uma psicóloga, cuidado!
Ela, arte ou profissional de corações e mentes,
parecerá que sabe muito mais que nós mesmos.
Será que perdemos alguma coisa?



* Cf. os minicontos O mais lento, Amizade, Liberdade
ou Pra desconstrair, p.ex.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


Finalista ao Jabuti 2007
de Melhor Livro Juvenil

EXCURSÃO

Chega a hora em que a galera cansa, se acalma. As luzes do ônibus se apagam. A professora está lá na frente, na primeira poltrona, dormindo. Bate aquele friozinho e o cobertor sobe mais um pouco. Cobertor dividido com
a Ana Luiza. Sobe mais ainda. Ah, as pernas se trançando, devagar, pra não fazer barulho. Ah,
a boquinha da Ana Luiza. A coisa esquenta,
mas o cobertor só sobe, tapa cada vez mais. Brincar com o peircinzinho no umbiguinho da Ana Luiza... Assim eu não me agüento, não agüento... Amanhã o Guilherme
vai ter que me contar como foi.

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