Bumba-meu-boi 
 Stela Barbieri e Fernando Vilela



Stela Barbieri
Bumba-meu-boi

il. Fernando Vilela
Girafinha, 2007
48 pp.


Forrado de veludo preto, com o brilho colorido de canutilhos, lantejoulas, miçangas e vidrilhos, o boi dança nas noites de junho do Maranhão, celebrando o São João. Por vezes, até o final do mês,
por honra e proteção de São Marçal. Folguedo aquecido
pela cachaça e pelo som de pandeirões, os pés que batem
o casco-chão passam para as páginas de um novo livro.

O Bumba-meu-boi narra sempre a mesma história
da morte e ressurreição de um animal muito estimado, mas variantes existem brasis afora. O núcleo dramático comum
à maioria dos folguedos diz respeito aos apuros
de Negro Chico, movido por Catirina e seu desejo grávido de comer a língua do mais belo e forte boi pertencente ao patrão, amo branco, senhor de tudo e do destino de todos... A farra do canta-conto mistura toadas e cenas representadas, ao longo de uma madrugada, e um mestre tira versos da memória, improvisa outros — e nós, que podemos fazer parte do batalhão, repetimos, cantamos e dançamos ao toque dos instrumentos. Impossível é ficar parado em seu lugar!

A cada ano, a cada boi, a festa é sempre outra, demandada pelas improvisões com que a criatividade popular se move. Mas, em seu livro, Stella Barbieri não ata as fitas
de diferentes variações. O que faz a autora é fiar-se no entrecho dramático tradicional, criando, no entanto,
um novo encadeamento: dilui os limites entre o que é vida
de folião e o que é vida de personagem. Assim, Negro Chico se mete em meio ao terreiro onde o boi encantado dança porque é exatamente da língua dele que Catirina deseja comer um bocado. Está feita a confusão, como tirar
o animal de uma festiva roda de foliões?

O texto verbal ressoa simplório, tendo ao largo
as ilustrações de Fernando Vilela, quintuplamente premiado neste primeiro semestre e quintuplamente indicado a outros prêmios até o final de 2007, dispensaria comentários.
Sua técnica é coerentemente dramática, multifacetada nos movimentos e no colorido explosivo que dão aos olhos
o intenso girandê da festa. A aplicação de cores puras impregna-se da consciência gráfica do artista, em meio
à sobreposição de texturas de madeira e de impressão
em xilogravura, papéis recortados e rasgados, num ritmo muito próprio das folias que incendeiam a noite.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Num lugar muito distante, em junho,
na noite de São João, vaqueiros, índios, caboclos, um amo e
um lindo boi bailavam e cantavam o dia do santo. A festa estava animada,
e durante um ano aquela gente vinha esperando por ela. Na noite da festa, os pandeirões foram aquecidos na fogueira,
as matracas soavam ritmadas e o batalhão bailava de um lado para
o outro, trazendo graça e alegria à brincadeira que entraria noite adentro. »



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