O menino mais feio do mundo 
 Regina Chamlian e Helena Alexandrino



Regina Chamlian

O menino mais
feio do mundo

aconteceu no São João

il. Helena Alexandrino
Ática, 2007
40 pp.

Há um feitiço de lenda e lenha
aquecendo o coração desta história, como nos sonhos
de uma noite de junho... Em meio aos festejos da véspera do São João, Bertoldinho percorre o labirinto de gente que pesca peixinhos, faz fila para a pipoca, diverte-se com os mamulengos e aproveita também a distração para saber da sorte, do amor, do amargor da morte. Bertoldinho sente-se
o menino mais sozinho do mundo: seguir os mesmos caminhos dos amigos no divertimento não basta, por vezes até mesmo machuca.

Nesta noite, sob o clarão da lua,
Bertoldinho fincou uma faca na bananeira
por necessidade de adivinhação. Que a seiva escorresse e desse forma de letra, a letra com que começa e se escreve
o nome da futura namorada... S. Porém, são terríveis
os reflexos da casa dos espelhos e Solange brilha longe, entre risadas que ferem. Mas, há Selene, de silenciosa espera e companhia que ele nem desconfia e vai se fiar na
conversa charlatã de Soraya, a feiticeira da quermesse...

Elementos mágicos de nossa brasilidade se mostram
no texto de Regina Chamlian, no galope de uma fantasia bem temperada. As fogueiras de junho, entre nós, são da mesma luz e feitio que inspiraram os devaneios de Shakespeare, dando asas aos encantados que invadiram o teatro elisabetano, e inspiraram também a composição de um músico russo chamado Mussorgsky que acordou uma feérica excitação sonora em A noite sobre o Monte Calvo. E este é
o ritmo das imagens noturnas de Helena Alexandrino,
sobrepondo planos e sombras, impressões, claros e detalhes, delicadeza e formas distorcidas, distância e intimidade —
uma dinâmica expressão.

As autoras criam uma história original,
estrelada de símbolos, para falar a crianças e jovens
"que sofrem o pão que o diabo amassou, quando não correspondem aos padrões de beleza corrente".

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Bertoldinho saiu
da tenda e foi para a encruzilhada. Andava de um lado para o outro, impaciente.
E nada de
ninguém aparecer.
Até que,
de repente, na curva
da estrada, viu um sujeito de fraque, cartola, guarda-chuva pendurado no braço, tocando rabeca.
Quando chegou perto dele, Bertoldinho perguntou:
— O senhor
é o capeta?
O homem parou
de tocar e respondeu, perguntando:
— Por quê?
Não pareço? »


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