A velha dos cocos 
 Ninfa Parreiras



Ninfa Parreiras
A velha dos cocos

il. Marcelo Ribeiro
Global, 2006
16 pp.


Os poucos cabelos da
velha dos cocos misturam-se com a poeira da estrada,
as lembranças que já desbotam com os filhos que
jamais criou. Entre pacotes cansados e malas alheias, ela segue viagem com a esperança de que, na próxima ida,
a venda corra melhor. Essa é a vida. Agora, ela volta.
Ela e o saco de cocos para a casa.

Se imagina contas de quanto ganharia, coisa incerta
para ser tão precisa e prevista, a velha dos cocos
mal olha a paisagem fora, de tanto que vai dentro de si.
Numa das tantas paradas, onde mora seu destino, afinal,
os olhos de tristeza secam. Ela dá falta da bagagem:
estando só, velha, sem o saco de cocos. E não só:
havia também coisas miúdas, roupas, pão para a galinha (talvez o único ser vivente que tenha criado), o queijo para sua janta. O trocador do ônibus propõe negociação, mas
— quanto vale um saco de coco, uma viagem, uma vida?

Este é um conto com um pouco de lágrima
que Ninfa Parreiras escreve em uma linguagem lírica, evocando, muito mais que contando a sua história.
É preciso o leitor refrear o ritmo, amineirar-se, flagrar
por entre palavras o que o cotidiano esconde do olhar
pouco atento aos pequenos, aos velhos,
àquilo mais que parece não ter importância.
Olhar que irá recolher, das imagens de Marcelo Ribeiro, outros fragmentos dispersos de uma existência anônima, quase um borrão com seus fracos contornos e cores mescladas — pigmentos que, em camadas, fazem surgir um quê de novo frescor sobre as velhas manchas.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Dos cocos.
Uma velha dos cocos. Viajava de ônibus.
Vinha de uma vila de pescadores. Ônibus parador. Cheirava a mercado. Parava em qualquer povoado. Estacionava para um gole de café na frente de bar, de posto de gasolina.
Nele entravam
e saíam viajantes. Comerciantes, aves, vaqueiros, cargueiros, ambulantes, vendedores, animais de colo. Muitos de todos esses. »


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