A história do galo Marquês 
 Ganymédes José



Ganymédes José
A história do galo Marquês

il. Avelino Guedes
Moderna, 1982
64 pp.


O Marquês do Ovo de
Santo Antônio foi o presente
que o moleque Cendino ganhou de Sinhá, o último dos treze que a choca esqueceu no ninho. Nasceu do calor das mãos do menino, o pintinho feio que a mãe, com seu instinto de preservação, recusou — e tornar a recusar, mesmo depois de seca a penugem, quando ele já parecia mais com uma bolinha amarela e linda piando.

Xereta como o menino e fiel como um cão,
Marquês acompanha Cendino por todos os cantos da
Fazenda da Grota Funda: cisca sem limites pelo terreiro,
vai à horta, encarapita-se nos galhos da jabuticabeira,
não tem cerimônia alguma para entrar na sala de Sinhá...
E, claro, deixa o rastro de suas imundíces por onde passa.
A solução é ingênua, dada pela Tervina (e ninguém dava fé que falasse coisa que preste aquela desengonçada como um bambu vestido, uma peste, isso sim) e temos, então, um galo branco com nome empolado andando de calças por aí.

A alegria da convivência tem, no entanto, um tempo
aprazado para findar: com as festas de final de ano, a visita inesperada de um poderoso Comendador àquela fazenda e uma promessa de título de nobreza ao senhorio de Cendino.

Ganymédes José escreve esta pequena novela
com feitio de lenda de uma época passada, 1882, quando ainda existia a escravidão nas terras onde nasceu,
a eterna Casa Branca de sua literatura. As imagens
de seu texto narram cenas de uma cordialidade cotidiana
com que Cendino se acostumou na grande fazenda,
muito próximas da visão do moleque que desconhece a razão para o silêncio da autoridade entre os adultos. Assim,
à irreparável morte de Marquês, emana a tristeza sem fim
do menino que, pela primeira vez, compreende não ser dono
de nada nessa vida, nem mesmo de seus sentimentos.

Ganymédes conta-nos, sempre, uma história de paz
para que o coração dos leitores possa despertar:
porque há sempre uma noite para os grandes pedidos.
Então,
se você ouvir um galo cantando quando estiver
batendo meia-noite no dia 24 de dezembro, é sinal
que o Menino Jesus passou por ali...
e que acaba de acontecer um milagre!

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Sentando-se à sombra da jabuticabeira, Cendino cruzou as pernas e ficou olhando o ovo. Depois voltou a sacudi-lo para ver se continuava piando. Continuava. Só que era um pio fraco, pio de falta de ar. Nossa, e se o pintinho estava morrendo? Precisava tirá-lo imediatamente! Mas como? Quebrando a casca, igual Mãe das Dores fazia com os ovos para fritar?
Voltando a encostá-lo no ouvido, Cendino percebeu fracas batidas internas. »


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