Zélio O navegador e o príncipe il. Ziraldo FTD, 1997 72 pp. As intermináveis releituras do passado possibilitam-nos ampliar os pontos de vista, repensando fatos e questionando valores. Neste livro, aparentemente recomendado para crianças, Zélio nos proporá uma viagem, recontando a História à sua maneira, em um convite para uma grande reflexão a respeito do Descobrimento. Abrindo a narração, o autor-narrador desculpa-se diante dos leitores, pois contará uma história, talvez não condizem com que ensina a História. Sua memória não se lembra mais dos fatos tal como se deram, somente de como ele os ouvira » Palavras nem um pouco inocentes: desde o princípio, o narrador previne o leitor de que se trata ali de uma ficção, sem compromisso com a História, mas sim com sua história. A História que conhecemos narra a chegada de certo Colombo à nossa terra, como herói desbravador que coloniza os “primitivos” que aqui viviam. No livro de Zélio, narram-se dois outros episódios: Colombo e suas caravelas afundam e, por conta deste malogro, um príncipe asteca acaba por navegar até o outro lado do oceano e por “descobrir” a Europa. Entretanto, apesar de tratar-se um descobrimento, o autor propõe a visita dos astecas ao Velho Mundo como uma chegada respeitosa e cordial, diferentemente do que a História nos contaria, em vista de como nossas terras foram devastadas e seus habitantes ignorados. Tanto na forma, quanto em conteúdo, a nova trama demonstra grande afinidade com a narrativa épica. O navegador e o príncipe resgata a história das navegações, das pessoas que sonhavam com terras desconhecidas, heróis em busca de aventuras. Há aí e já, um diálogo com o épico português, de 1572, ou seja, Os Lusíadas d’As armas e os barões assinalados Que, da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca dantes navegados, /.../ Em perigos e guerras esforçados /.../ entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram (Canto I). Dirá Zélio: « E o vento esticava as velas levando o barco castelo por caminhos de aventuras nunca dantes navegados sumindo, se unindo à linha que separa o azul do céu do profundo azul do mar.» O diálogo aberto claramente vai além da citação. O texto moderno re-inventa o passado, perpassa o modelo literário em que se espelhou: além de reler Os Lusíadas, inventa uma nova versão para a História que conhecemos das navegações, criando para os leitores um mundo completamente novo e cheio de possibilidades. Zélio escreve uma nova obra, modificando suas antecessoras. Através de sua subversão, o autor levanta uma questão muito importante: e se o colonizado tivesse sido o colonizador? |
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