Nelson Cruz Chica e João il. do autor Formato, 2000 40 pp. Chica da Silva é uma dessas personagens cuja existência e a história de amor com que se envolveu, escandalizando o Arraial do Tijuco, são conhecidas graças à tradição oral de Diamantina, cidade de Minas Gerais. O escritor e ilustrador Nelson Cruz valeu-se de uma extensa pesquisa histórica a fim de montar seu “romance”, que mescla ficção e história. O livro faz parte da coleção Histórias para contar História, “que traz à tona amores coloniais no Brasil, procurando isolar as personagens históricas de suas causas sociais, mostrando acima de tudo, que essas personalidades simplesmente desejavam viver e ser amadas”, como nos revela a contracapa do livro. Baseando-se nas litogravuras do alemão Johan Moritz Rugendas* que viajou pelo Brasil, entre 1821 e 1825, Cruz pode ilustrar Chica e João com extrema veracidade. Assim, a ilustração aqui cumpre uma função narrativa, a personagem Chica se desfazendo da imagem estática, perdendo contornos de superfície e de linha, para ganhar formas atributivas de sentimentos e emoções. É assim mostrada como uma personagem fisicamente caracterizada mas, acima de tudo, também pelo que deseja, sonha, lembra, imagina, pensa. A narração, feita em primeira pessoa, abarca a consciência da personagem, e Chica percebe-se como representação da própria releitura que fazem de sua vida. Negra e escrava, apaixona-se por João Fernandes, contratador de diamantes da Coroa Portuguesa. Chica casa-se e tem muitos filhos com ele, tornando-se uma mulher rica e amada, uma verdadeira rainha no Tijuco. Porém, somente naquele arraial. Fora desse território, ela não era ninguém, era somente uma ex-escrava. A personagem sofre, então, com a distância do marido e dos filhos, que foram para Portugal. Assim, presa em seu próprio espaço, aquele reino único, vivendo a dor e a agonia de estar só. À voz de Chica, mesclam-se perfeitamente as ilustrações do autor, revelando a personagem sob uma perspectiva subjetiva e intimista, além de bastante sombria. Chica, que amou e que sofreu, mostra-se melancólica por não conseguir ultrapassar os limites do Tijuco, região onde morava. E essa tristeza surge desde a primeira página, acompanhada pelo tom escuro das ilustrações de modo espetacular. Os tons claros só aparecem quando a narração põe de lado a tristeza, como na cena em que Chica, ricamente ornada, segue ao encontro do futuro marido. Mas, toda a solidão que sentiu tinge por completo as ilustrações e vemos como Chica tornou-se igualmente cativa das próprias páginas do livro, que começa e termina com um mapa demarcatório da região do Tijuco. Nelson Cruz faz um retrato extremamente interiorizado e rompe com a imagem que dela temos: a escrava esperta, negra sagaz, senhora de apetite sexual voraz, como nos foi apresentada no filme Chica da Silva, de Cacá Diegues (1974) ou na telenovela que lhe foi dedeicada (Manchete, 1997). Estes outros enredamentos faziam Chica sensual e, muitas vezes, vulgar. Por que não modificar essa ordem, mostrando o interior da personagem? |
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