Era mais uma vez outra vez 
 Glaucia Lewicki



Glaucia Lewicki
Era mais uma vez
outra vez


il. Gonzalo Cárcamo
Edições SM, 2007
96 pp.


De repente,
o narrador de uma velha história sente uma nova emoção: o livro de conto de fadas onde mora, anos e anos esquecido e empoeirado na estante,
é decididamente retirado dali por uma pequena leitora.
Já não era sem tempo, relembrar e contar mais uma vez
a narrativa da casa! E, como o narrador é quem deve fazer as honrarias de abrir a história para os leitores, ele bem sabe que deve conferir se está tudo em seus devidos lugares e os personagens prontos para entrar em cena.

Mas, às primeiras linhas, viu
que o "era uma vez" não era mais coisíssina nenhuma
do que fora, outrora, e deveria ter sido, para todo o sempre. Pulando de página em página, antes que o livro fosse
aberto, o narrador descobre um mundo totalmente diferente daquele em que havia deixado os personagens, desde a última leitura. Cada um se arranjou com destinos particulares — e está armada a confusão!

Um famoso, distinto e famigerado Dragão de Sete Asas
(que, na verdade, nem eram sete, ho-ho), nesse meio tempo, comprou o castelo do rei e mudou o nome do reino! O rei,
ora essas, vai muito bem, obrigado, longe do manto real...
A Princesa Priliana de olhos adoráveis tem ainda
olhos adoráveis — mas onde foi parar? Somente Sapristo, aquele monte de músculos e pouco cérebro que era o príncipe, continua tão inteligente e forte quanto antes.

Glaucia Lewicki não apenas atrai o interesse
para uma história descontraída em que os personagens dos contos, cansados dos papéis tradicionais, dão tratos à bola para viver com bem entendem. Esta foi um tendência ao gosto da década de 1970, questionando valores do passado. A autora traz ao texto a irreverência da metalinguagem
que colore de contemporaneidade outros aspectos: ironiza
o status do narrador, pondo em cheque sua onisciência, considera o lugar que o leitor ocupa em relação às obras
e dá evidência ao livro, ora cenário, ora simples suporte.

Nomeado cavaleiro, Sir Narrador sofre e, mesmo
sentindo-se contrariado, deve contar que o "caranguejo foi buscar a lua em outra página" aos leitores de hoje —
outras vezes, passagens assim pontuam
o exemplar desse exemplar "era mais uma vez".
E Cárcamo não fez por menos: dobras de páginas e
sombras se insinuam do livro real à ficção.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


Prêmio Barco a Vapor Fundação SM 2006

« Na página seguinte, o rei estava em uma praia. A ilustração era moderna. Não tinha nada a ver com as outras imagens do livro. Deitado em uma espreguiçadeira, Sua Majestade trazia a coroa na cabeça, mas usava sandálias de dedo e calção de banho.
— Majestade! — chamei.
— Narrador!
Como vai? Há quanto tempo não ouço sua voz!
— O que faz Vossa Alteza nessa praia?
— Vendi meu reino.
— Vendeu?!
— Sim. Cansei
de ficar naquele castelo sem fazer nada. Vendi o Reino da Calibúrnia e comprei esta ilustração
de praia do livro que ficava ao nosso lado.
— M-mas...
— Sem gaguejar, narrador... »


Visitar a página de
Gonzalo Cárcamo

ir para

comprar

voltar