Angela-Lago João Felizardo o rei dos negócios Cosac & Naify, 2007 32 pp. Se mais é menos, na economia da linguagem revela=se uma multiplicidade. Sempre. De leituras, ou da leitura que faz caminho colhendo algumas surpresas. Jogar com o leitor é algo em que Angela Lago, agora Angela-Lago, se mostra mestre. E ninguém se cansa, espera mesmo por aquele instante, em que isso vira aquilo. Sim, menos = mais. Esta é uma engenhosa interpretação do conto popular João, o rei da barganha, que recebe de herança apenas uma única moeda de ouro, ah miséria, e sai mundo afora para fazer fortuna. E, claro, alguma confusão também... Para começo de (pouca) conversa, a autora reitera, no texto verbal, que esta é a história de João Felizardo, o rei dos negócios, e lança nossos olhares para a ilustração. É fácil ler a primeira cena, mas muito mais fácil é perder-se nos detalhes da imagem crispada e castanha em traço incerto que dá o começo = o fim, o pai de João é morto. E é preciso flagrar o sorriso no rosto dos homens, o movimento de suas mãos, os bolsos cheios de uns, a mão estendida do menino. Há muito o que ler = recuperar e criar a partir das pistas. A narrativa segue em ritmo de lengalenga que, todos sabem, costumamos chamar também de conto acumulativo. Porém, Angela-Lago faz o seu menino João trocar, trocar, trocar e bole a estrutura tradicional. Seria um des-conto acumulativo? Esta seria apenas uma impressão: de que o rei dos negócios sai sempre perdendo. De um cavalo a um burrinho, e João o troca por uma cabra, por um porquinho sossegado, por um pássaro... Um pássaro tão... Oh, surpresa, nem o narrador teve tempo para completar sua frase! Ao fundo, a paisagem (eu disse "ao fundo"? engano-me). A cidade que se espalha, transborda nas páginas, comprime o João e faz a gente se perder num caos só — essa cidade tão nossa, vai ficando para trás e as cores planas de azul e areia vão deixando o menino caminhar. Aí, descobrimos, porque Felizardo por um imenso segundo. |
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