Pula-elástico 
 Zoran Pongrašic


Zoran Pongrašic
Pula-elástico

trad. Heitor Ferraz Mello
il. capa: Suppa
Edições SM, 2006
160 pp.


Nem sempre, voltar para casa, depois de seis meses de internação, é a melhor coisa a ser feita
— ainda mais sabendo o que você sabe o que enfrentará:
parentes, amigos de seus pais, não seus, claro,
preocupados com sua saúde. As colegas de escola também.
E os olhares curiosos. Seria ótimo evitar a exposição.
Será que ninguém percebe, você não é mais aquela Marina
como costumava ser? Não, por fora — shit, shit, shit!
Careca da cabeça mas, é outra coisa: é por dentro.

Papai não entende que o carro precisa ir mais depressa,
que ela não precisa ver a rua em câmara lenta, muito menos, ver Sanya e Ivana brincando na praça. Mamãe não entende que não precisa chamá-la de "minha alminha", nem chover em cima com tantos beijos babados, mas precisa parar de andar pela casa com seus agasalhos ridículos, queimá-los todos, urgentemente, pois isso não a torna mais nova. E
Darko precisa... Darko não precisa, quer dizer, não precisava nem mesmo ter nascido para se achar o cara mais inteligente do mundo. Decididamente, Marina não precisava voltar.

A família Bakaritch vive dias em estado de alerta.
Marina não deseja ver pessoa alguma, receber visitas, sair
à rua, e os motivos talvez sejam mais simples
do que pensam Gvozden e Lyerka, seus pais. É natural que
a experiência da menina, em tratamento contra a leucemia, tenha sido dolorosa: aos 12 anos, pressentindo a morte, observando as outras camas da enfermaria amanhecerem com novos rostos, ou simplesmente vazias. Em casa,
Marina naufraga sem uma imagem querida em que possa
reconhecer-se diante do espelho, diante dos outros.

«É comovente, em Pula-elástico, a obstinação amorosa com que os pais evitam abordar o medo da morte com sua filha caçula.», escreve Maria Rita Kehl, no posfácio ao livro. «Mas, ao escolher conduzir sua novela a partir do ponto de vista de uma pré-adolescente furiosa com a inabilidade dos pais, Zoran Pongrašic desliza agilmente do comovente ao cômico.»

A obra é dividida em sete capítulos, como são sete as etapas do jogo do pula-elástico, chamado gumi-gumi na Croácia: canelas, joelhos, quadris, cintura, costelas, axilas e céu. Gumi-gumi é também o título original do livro,
escrito em 2001 e traduzido, primeiramente na França,
antes de verter-se à língua portuguesa. Sua história evidencia uma nova série literária que emerge na literatura juvenil de vários países, descortinada por um aspecto de circunstancia-lidade: temas delicados, situações-limites, textos fortes
— e uma aposta na virtude curativa das palavras. Antes de oferecer um texto pesado pelo assunto verista de que trata, no caso de Zoran Pongrašic, temos um texto que flui marcado por bons diálogos e mudanças precisas quanto à voz do discurso. Ora é Marina, abrindo registros no diário, ora
um narrador intruso às cenas capaz de assimilar a fúria e
a ironia próprias da adolescente, sem jamais direcionar
uma convicção missivista ou o julgamento dos leitores.

— Se você continuar babando em mim,
vou acabar vomitando. Ou desmaiando. Ou
as duas coisas ao mesmo tempo! E não me chame de
"alminha". É como se eu fosse um fantasma.
Porque, como você pode ver, ainda estou viva!

  C r o á c i a
Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Estava plantada ali, diante de uma porta marrom das mais comuns, atordoada por um cheiro que parecia familiar.
Então, ela lembrou. Na primeira vez que entrou no hospital e atravessou os corredores que ainda não conhecia, sentira o mesmo cheiro, vindo não se sabe de onde. Era o cheiro de bolo que uma enfermeira, com um penteado fora de moda, tinha lhe oferecido enquanto ela esperava seu pai terminar de conversar com os dois médicos.
— Por que você parou? — perguntou o pai, que estava logo atrás dela na escada.
Ela sentiu as pernas bambas, como se fossem feitas de borracha, e achou que fosse cair.
— Entre,
minha filha! »


Capa da edição francesa (Le Rouergue, 2004)

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