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Leituras na USP
Dobras da Leitura publica uma série de trabalhos desenvolvidos pelos alunos do curso de Letras
- USP, junto à disciplina Literatura Infantil e Juvenil e Linguagens do Imaginário IV,
ministrada por Maria Zilda da Cunha - outubro de 2006.

Pequenos estudos, análises e resenhas em diversas seções do site.

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a reinvenção da Arca
Débora Baroudi Nascimento
do Curso de Letras — USP
O que é uma reinvenção literária? Com esse questionamento, desenvolveremos a leitura do livro
De fora da Arca, de Ana Maria Machado e Laurent Cardon (2004), buscando depreender o conceito
de originalidade e que razões levam um autor a reler os textos do passado em sua obra.
Como sabemos, os diferentes diálogos que a literatura mantém com outros sistemas semióticos possibilitaram
o desenvolvimento dos estudos comparativos e, dentre os precursores, estão os formalistas russos que
estabeleceram a noção de linguagem poética, prescrevendo que cada obra devesse ser analisada dentro do conjunto
de relações internas ao próprio texto. Contudo, outros formalistas defenderiam que a obra literária não se encontra
isolada, mas integra um sistema de correlações, maior que o próprio texto. Foi Bakhtin quem fugiu às concepções
da imanência do texto e recuperou o elo entre seqüências literárias e história, a partir de uma perspectiva
diacrônica de texto que escuta as vozes da história e as representa em um jogo de tensões — a obra literária
é vista, então, como construção caleidoscópica e polifônica.
Importante retomarmos aqui as contribuições de T.S. Eliot que, a partir de 1917, discutiu o fazer poético,
considerando que o dado diferenciador de uma obra é exatamente o que associa um autor a seus antecessores. Para
o estudioso americano, a noção de tradição é algo não linear e envolve o senso histórico do escritor, não apenas
uma percepção do passado, mas de sua atualidade no presente da criação. A literatura possui, assim, uma existência
simultânea: quando uma obra surge e modifica sua antecessora, modifica igualmente a ordem existente e altera nossa
compreensão — isto significa que, tanto quanto é dirigido pelo passado, o presente re-significa o passado.
Tais idéias são retomadas por Borges, em 1974, que coloca em cheque a noção de cronologia e propõe outra forma
de comparar textos de diferentes épocas. Além do mais, invoca dúvida sobre questões de autoria e originalidade —
afinal, o que seria mais original, a obra postulada (o modelo) ou a obra atual? Suas conclusões são de que
um texto novo, aquele que subverte a ordem estabelecida, é ponto de referência, pois obriga os leitores a uma releitura da tradição.
Com base nesses fluxos teóricos, observaremos algumas relações que se tramam no texto de Ana Maria Machado,
em parceria com o ilustrador Laurent Cardon — De fora da Arca — nos elementos que traz de diferente,
em relação ao passado.
A ilustração da capa, associada ao título da obra, já suscita o tema e a intersecção de duas tradições. O vocábulo arca nos remete à narrativa judaico-cristã d’A arca de Noé e, em matizes de azul, temos a visão exterior da grande barca. Em um pequeno compartimento, estão alguns animais que reconhecemos como um casal de elefantes e de hipopótamos. Conforme a luz se projeta sobre a capa, destaca-se o contorno prateado de um dragão: sua cauda, como seta, indica justamente o título da obra, levando-nos a relacionar sua figura com a perspectiva de exclusão, sugerida pelo próprio título.
A narrativa cadencia duas esferas intertextuais de cunho histórico. Num primeiro plano, a história bíblica que será caracterizada por um aspecto lúdico, graças a uma linguagem coloquial e à sintaxe simples, aos jogos de linguagem e outros recursos que aproximam narrador e leitor. Em confronto, esses aspectos tornam-se evidentes:
E disse o Senhor: Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que criei, desde o homem até o animal, até ao réptil e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito. Noé porém achou graça aos olhos do Senhor. Estas são as gerações de Noé: Noé era varão justo e reto em suas gerações: Noé andava com Deus. ENTÃO disse Deus a Noé: O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra. (Gênesis 6:7-13)
Há muitos e muitos anos, quando o mundo ainda era um bebezinho, as pessoas andavam muito levadas, fazendo muita arte. Pelo menos, era o que achava o Senhor, o Criador do mundo. Ele tinha feito um lugar tão bonito, para tanta gente ser feliz, e ficava todo mundo sem juízo, sem merecer aquelas belezas e delícias todas... Aí o Senhor ficou bravo e resolveu arrumar um castigo danado.
Um castigo de arrasar. Um Dilúvio Universal.
Quer dizer, uma chuvarada sem parar que ia inundar tudo, alagar os campos, acabar com as cidades, afogar todo mundo que estava se portando mal. E só iam se salvar umas poucas pessoas, que eram boas. A família de Noé. (p.5, grifos nossos)
A presença de diminutivos, de um vocabulário inteligível — e mesmo de uma estrutura sintática mais ordenada, sem inversões de seus elementos funcionais —, conferem à obra um caráter lúdico. Ao contrário do texto religioso, em que a linguagem rebuscada e a sintaxe complexa concedem-lhe um tom épico e afamado. A renovação da história cristã pauta-se pela linguagem, a estrutura narrativa e também na caracterização do personagem. Com humor, o jogo atribuindo surdez a Noé.
— Mas onde é que o Senhor quer que eu guarde esses bichos todos?
— Na Barca.
— Na Arca? — repetiu Noé, que já tinha mais de quinhentos anos e não escutava bem, achava sempre que Barca era Arca (p.7)
A confusão era enorme. Tudo que era ave queria se espremer e passar pela janelinha para ir voar lá fora no céu azulzinho que aparecia, com um imenso arco-íris. As araras conseguiram primeiro, gritando:
— Arara! Arara!
— Ararat? — repetiu Noé, sempre ouvindo mal. — Gente, chegamos! Encalhamos no monte Ararat... Pronto! A montanha estava batizada.(p.16)
No segundo plano, as entidades míticas surgem e são descritas iconicamente, através de escolhas muito ricas em recursos sonoros e verbalmente visuais, que “mais do que representar, desejam ser, apresentar os objetos” (Palo e Duarte, 1984: 17) Em De fora da Arca, a construção das imagens faz-se por analogias:
Basilisco tem peito e cabeça de galo e rabo de lagarto, com ferrão na ponta. O olhar dele mata, o bafo dele queima, e ainda tem um fedor de deixar a gente tonta. Tem corpo de serpente mas não se arrasta, só rola. Vai girando em espiral, como se fosse uma mola. (p.24)
Ao animal, cuja existência se dá tão-somente no Imaginário, é dada uma imagem que se perfila a partir de correspondências com seres da natureza e objetos conhecidos, visíveis ao nosso consciente, tornando possível a projeção, sobre a imaginação do leitor, dessa entidade, o Basilisco, e outras mais.
Os personagens mitológicos são renovados também na medida em que a narrativa desmistifica seus aspectos aterrorizantes. Vale contrapor a descrição de um animal fantástico, como a Lâmia, a partir do Dicionário de símbolos, de Cirlot, e em Ana Maria Machado:
Personagem mítica. A rainha Lâmia, célebre por sua beleza, foi transformada em fera por sua crueldade. Mencionadas em textos antigos no plural, as lâmias são então seres semelhantes às sereias, que vivem com freqüência em companhia dos dragões, em covas e desertos. Em 1577, Jean de Wier publicou um tratado inteiramente dedicado a estes seres, o Lamis Líber. Segundo Caro Baroja, na Vascônia existe também a crença popular nas lâmias. Seu atributo é o pente de ouro (esqueleto de peixe). Nas lendas as lâmias são consideradas devoradoras de crianças. Jung assinala o fato de que também se chama lâmia um enorme peixe muito voraz (de lamos, abismo), estabelecendo conexão das lâmias devoradoras com o dragão-baleia estudado por Frobenius, em Zeitalter des Sonnengottes. (1984: 333-334)
Lâmia vinha da Líbia e era animal bem veloz. Atraía muitos homens para ficarem a sós. Peito e cara de mulher, corpo de bicho escamado, quem caía em suas garras ficava dilacerado.
Em De fora da arca, a crença de a rainha ser devoradora de crianças fora omitida. Essa observação vale também para outras entidades e esse expediente da autora brasileira talvez nos permita uma leitura: Ana Maria Machado visa romper com o caráter amedrontador e assombroso desses animais — atributo que poderia, por ventura, bloquear o interesse dos pequenos por essas mitologias e, por isso, buscou cativar o leitor com outras investidas de leitura ao universo mitológico.
Se, à primeira vista, a história d’A arca de Noé pareça ser reconstituída linearmente, na medida em que a nova narrativa se desenvolve e as lembranças mitológicas vêm juntar-se à matriz bíblica, vemos que os dois planos entrecruzados colocam o leitor diante de uma colagem paródica contraponteando textos e culturas. O livro prima pela urdidura, no incurso literário em que as diferentes mitologias pagãs são recuperadas na voz de personagens bíblicos, especialmente os filhos de Noé. Quem ficou de fora da arca na travessia do dilúvio, teve sua salvação graças à memória afeita às histórias de seres impossíveis de Cam, Sem e Jafé, ainda meninos. Portanto, nos deparamos com uma narrativa singular graças à abordagem elaborada: uma terceira história em que dois planos aparentemente inconciliáveis, encontram-se intimamente tramados.
Ana Maria Machado, em depoimento a respeito da sua criação, no final do livro, ajuda-nos a relacionar a lembrança do passado com nosso próprio tempo: “eu estava pensando em algumas espécies animais ameaçadas de extinção e me ocorreu que os ecologistas, de certo modo, estão sendo os Noés modernos.” Se os ecologistas representam os noés contemporâneos, na luta pela sobrevivência das espécies, os escritores são os responsáveis pela preservação das tradições literárias, no que concerne às figuras do mágico e do fantástico em contos, mitos, lendas e outros gêneros do passado. Porque existem apenas no imaginário, os animais fabulosos são hoje preservados pela lembrança — e as diferentes faces do resgate — de que deles fazemos.
A autora demonstra a importância da lembrança e da memória, não apenas como mera reprodução ou repetição de textos do passado. Ao contrário, subverte idéias, antes estáticas, modificando nossa percepção literária. Ao mostrar aqueles que não ficaram de fora da arca (pois viajaram na lembrança de seus tripulantes), fez com que olhássemos para o diferente, para a descontinuidade — para que falar, mais uma e outra vez, nos bichos que todos conhecemos, se é possível cuidar daqueles escondidos na imaginação?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA SAGRADA, trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Primor, 1987.
:: BAKHTIN, Mikhail.
:: BORGES, Jorge Luís.
:: CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 2004.
:: CIRLOT, Juan-Eduardo. Dicionário de símbolos. São Paulo: Moraes, 1984.
:: ELIOT, T.S. A tradição e o talento individual (1917).
:: PALO, Maria José e OLIVEIRA, Maria Rosa. Literatura infantil: voz de criança. São Paulo: Ática, 1986.
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