Eva Furnari

O feitiço
do sapo


il. da autora
Ática, 1995

Leituras na USP
Dobras da Leitura publica uma série de trabalhos desenvolvidos pelos alunos do curso de Letras - USP, junto à disciplina
Literatura Infantil e Juvenil e Linguagens do Imaginário IV, ministrada por Maria Zilda da Cunha
- outubro de 2006.

Pequenos estudos, análises e resenhas em diversas seções do site, conforme a extensão e a natureza do trabalho.


O resgate de
formas populares
em
O Feitiço do Sapo


Laura Shizue Igawa
do Curso de Letras — USP


O feitiço do sapo, de Eva Furnari, é uma obra que dialoga com os contos populares de magia através da história de Zóio, morador da cidade de Piririca da Serra, que tem a mania de praticar “boas ações”... Certo dia, o rapaz decide ajudar Carmela a encontrar um príncipe encantado e, pensando que qualquer sapo poderia assim se transformar, vai até a beira do rio, pega um sapo verde e o coloca numa caixa na porta da casa de Carmela. A moça, feliz, beija o sapo — mas, nada acontece. A partir daí, as aventuras começam a se desenrolar: Carmela leva o anfíbio até o professor Boris, um cientista que, não conseguindo desfazer o feitiço, chama seu primo, o mago Druilo, para auxiliá-lo... Druilo perde seu chapéu mágico que irá cair nas mãos da bruxa Zelda. Muitas confusões então acontecem e Carmela acaba acreditando que seu verdadeiro príncipe encantado é nenhum outro, senão Druilo. No final, os dois se apaixonam e Zóio fica feliz por ter feito mais uma de suas boas ações.
É nítida a marca de intertextualidade com os contos tradicionais, pelo resgate que essa obra faz da história do sapo que vira príncipe, bem como explora motivos da imaginação popular como o mago de chapéu encantado e a bruxa malvada. Destes elementos, certos traços são preservados e outros verdadeiramente parodiados. Sabemos que os contos de fada surgiram a partir de narrativas primitivas, contadas oralmente de geração a geração e, em geral, começam com marcas de indefinição quanto ao tempo e o espaço — “antigamente”, “era uma vez”, em terras e reinos distantes — mas este não é o caso de O Feitiço do Sapo, que assim se inicia: “Todo lugar sempre tem um doido. Piririca da Serra tem Zóio”.
Desta maneira, a autora promove a aproximação do leitor com um local que sabemos não mais pertencer aos contos tradicionais. Eva Furnari talvez aponte para um lugar mais real do que imaginário, ao escolher um nome com jeito de cidade brasileira: Piririca da Serra. O elemento verossímil é justamente “da Serra”, pois existem cidades como Itapecerica da Serra, Natividade da Serra, entre outras. Já o elemento inverossímil — Piririca — faz alusão a algo divertido, sapeca, engraçado. O nome Piririca da Serra evoca uma cidade onde podem ocorrer episódios divertidos e viver perfeitamente um cientista maluco e uma bruxa. Também em oposição aos contos tradicionais, em que a narrativa ocorre em lugares jamais detalhados com precisão, temos até mesmo um mapa da cidade, nas primeiras páginas do livro, levando o leitor a conhecer de antemão as casas dos personagens.
Outra característica dos contos de fada é a presença do maravilhoso. A partir deste aspecto, Nelly Novaes Coelho (1991: 159) enumera algumas constantes, como a presença da metamorfose, o uso de objetos mágicos e o desafio do mistério.

Se, no conto tradicional, o príncipe é transformado em sapo por algum ente maléfico para que seja afastado da princesa, na obra de Eva Furnari dois personagens sofrem esta transformação: Druilo e o urubu Astolfo. O mago é enfeitiçado pela bruxa Zelda porque ela queria que ele revelasse os segredos de seu chapéu mágico. Já Astolfo é enfeitiçado para que, após a fuga de Druilo, procure o mago mato adentro. Desta maneira, a intenção da transformação agora já é outra, com a apropriação e uma nova perspectiva sobre o tema da metamorfose.
Embora nenhum dos contos de fadas conhecidos apresente, de fato, um mago com chapéu mágico ou a bruxa voando em uma vassoura, esses dois elementos comumente relacionados ao universo das narrativas tradicionais, também comparecem na aventura de Eva Furnari. Entretanto, aqui, o chapéu mágico possui um segredo único: só funciona com o pedido de “por favor”.
O desafio do mistério aparece na oposição entre ciência e bruxaria. Assim, primeiro apela-se para a ciência do professor Boris, mas ele não consegue resolver o problema do feitiço. Parte-se, então, para a ajuda do mago, pois ele possui o livro de feitiços que pode fazer o sapo voltar a ser príncipe. Colocando estes dois pólos em oposição, a autora leva as crianças a acreditarem no encanto e no que é mágico, retirando-as por alguns momentos do mundo apenas visto pelas afirmações científicas.

Juntamente a retomada de motivos da imaginação popular, o texto de Eva Furnari carrega marcas de oralidade, seja na forma de conduzir o fio narrativo, seja na construção dos diálogos (discurso interativo entre as personagens) — muitas onomatopéias colorem a história que apresenta ainda duas canções. A primeira, cantada por Carmela no início da história, tem as notas musicais e a letra reproduzidas nas páginas do livro: especialmente composta para acompanhar a cena, esta canção exemplifica toda a dedicação da autora na elaboração da obra. A segunda canção aparece no episódio em que o professor Boris e seu assistente Nicolino vão visitar a bruxa. Vestidos de faxineiras, os dois engambelam a bruxa dizendo que são do programa de rádio Coração de Sabão. Desta, Eva não nos dá a partitura, apenas os versos improvisados: “Meu coração é de João, de João, de João. Quem não entende é um bobão, um bobão, um bobão. Pode até lamber sabão, no salão, no salão...” E diferentes gêneros textuais também comparecem ao longo do livro — são bilhetes, telegramas e receitas (de feitiço) representados de forma a se diferenciarem graficamente do discurso narrativo — mostrando assim ao pequeno leitor as diferentes tipologias. É importante ressaltar que estes gêneros muito se aproximam da língua falada, contendo apenas uma mensagem breve, geralmente informal, ao destinatário.
Por sua vez, as ilustrações transmitem de maneira lúdica elementos importantes inerentes à própria narrativa, como o mapa de Piririca da Serra, bilhetes, telegrama e livro de receitas, já mencionados. Eva Furnari ilustrou alguns dos momentos da trama, principalmente aqueles que narram situações perigosas, engraçadas, reveladoras... Como a própria autora afirma, o recurso visual é caro aos livros infantis, pois, através dele, veicula-se grande parte da informação (Góes, 1996). Além de deter-se sobre as informações verbais, a criança pode reconhecer momentos específicos da história e se emocionar, observando o que as ilustrações possuem de objetivo ou subjetivo. A informação objetiva é aquela que transmite os aspectos descritivos ou narrativos, ou seja, figuras, paisagem, situação representada, etc. A informação subjetiva é aquela decodificada pela emoção, transmitindo uma sensação, uma impressão, um “clima”.
No caso de O Feitiço do Sapo, as imagens possuem tons leves, sem contrastes fortes, evidenciando a pintura de aquarela. Cada imagem passa uma informação objetiva diferente, dependendo da situação que ilustra: Zóio em sua bicicleta, Carmela beijando o sapo, o mago chegando à casa de Boris, etc. A informação subjetiva varia de acordo com os recursos plásticos da imagem. Quando são ilustradas situações cômicas, o tom é claro e são utilizadas muitas cores, deixando a imagem bem colorida. Quando a situação é perigosa, como nas imagens em que a bruxa aparece, os tons são mais escuros, revelando um clima sombrio. Enriquecedoras, as ilustrações proporcionam às crianças uma porta ao mundo sensível e fantasioso, em que as cores e os tons muito revelam sobre os próprios personagens.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COELHO, Nelly Novaes. :: Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Ática, 1991. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. 4.ed. rev. e ampl. São Paulo: Edusp, 1995. :: GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à literatura infantil e juvenil. São Paulo: Pioneira Editora, 1984. :: Olhar de descoberta. São Paulo: Mercuryo, 1996.

Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 42 - fev. 2007
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