Adriano Messias 
 Histórias mal-assombradas de um espírito da floresta




Adriano Messias
Histórias mal-assombradas
de um espírito da floresta


il. Andréa Corbani
Biruta, 2006
120pp.

André conheceu Tucuxi quando retornava de sua última estada na casa da avó. Prometeu voltar e voltou para conhecer as narrativas fantásticas que o índio, um dia muito distante, trouxe do norte. Remanescente de um grupo extinto, acumulou encantos, mitos e histórias de tantas tribos por onde passou, mais outras que viveu destino afora. E André, às vezes às voltas com seu silêncio de adolescente, leituras e fantasmas, começa o relato com uma vontade de ser índio, fugir dessas complicações da cidade grande — ao menos
por algum tempo, caminhando pela mata...

Agora estão os dois ali, no afunilado do Rio Grande.
Tucuxi é um homem carrancudo, não toca, nem abraça alguém, mas sua maneira de olhar é muito mais que ver:
é entender.
As águas são testemunhas das dores e amores humanos, das entradas e saídas dos seres mágicos. E,
no enrodilhado que molha, visagens surgem: a face sedutora de Iara, os olhos encovados da Ipupiara, pios de curupira e de inhambu se confundem, veja a vingança de anhangá,
vira-porco, capelobo comedor de cérebro...

No terceiro livro da série, as histórias são tiradas
durante o dia — dado o ofício de pescador do velho índio
que, além de sábio, tem pegada de pajé. Adriano Messias investiu os personagens e o próprio texto com um sabor
mais enciclopédico: Tucuxi não é como o bom selvagem, trocando histórias por uma ninhada de badulaques,
muito menos sua imagem resulta como que domesticada
por uma imaginação mediana — porque mescla tradição oral, superstições e desmitificação, conhecimentos lingüísticos; André também aparece mais enfronhado com leituras diversas, oportunamente comentando as narrativas
que transcreve — e talvez não seja à toa, pense você,
que seu nome completo fosse André Villas Boas.

Dos encontros à beira do rio — que, logo desaparecerá
sob a cheia da represa em construção, emerge a compreensão de que o mundo evolui enovelado por simultaneidades históricas, ou extraordinárias, cheio de assombramentos do presente a transformar o passado.

Ao futuro, Tucuxi continua o caminho.
Adeus, Anrati!

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Certos índios,
quando bem velhos,
se transformam em mapinguaris e passam a viver sozinhos no secreto das florestas. São vistos por alguns como tendo quase dois metros de altura, muitos fortes e com peles como as do jacaré, só que mais grossas. Suas mãos, pés e dentes são grandes. Tem gente também que fala que um mapinguari é mais parecido com um grande macaco, tendo um olho no meio da testa e uma bocarra, que vai até a barriga. Outros ainda dizem que... »



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