Adriano Messias 
 Histórias mal-assombradas do tempo da escravidão




Adriano Messias
Histórias mal-assombradas
do tempo da escravidão


il. Andréa Corbani
Biruta, 2005
116pp.

André novamente segue viagem para o sítio que ninguém acha para mais e mais "escutanças", ao lado da negra querida, Bá Maria, uma amiga com mais de cem anos, que nunca se casou e sempre adotou a criançada da redondeza como seus filhos. Com ela é que vamos conhecer outra versão da história do moleque-boneco de cera — aquele mesmo que uma velha fez para vingar-se do macaco que comeu todas as suas bananas. Mas esta é apenas um aperitivo para forrar seu estômago para outros causos...

As armações do temível Quibungo, o ferrão quebrado do Caipora, o homem que queria ganhar sempre no jogo do facão e, por isso, fez um pacto com o Tinhoso, a velha que não morria — e tantas outras histórias Bá Maria tira do passado e filtra para os ouvidos do zinfio. Curioso, André envereda-se pela tênue fronteira das lendas, onde se equilibram a imaginação e as relíquias históricas.

No entanto, o livro todo não é dedicado
à felicidade de sentir medo e tremer, desconfiado de que algum malefício espreita no breu da noite que silva... Espreguiço-me, mas não estou agora com sono. Peço a minha velha amiga para falar um pouco da escravidão para sairmos também da terra das assombrações
por alguns momentos. Há tempos ela quis me fazer
conhecer um pouco sobre os orixás, mas eu
não tinha tido tempo em outras férias. E também
era muito moleque, acho que não entenderia com a profundidade que só ela sabe ensinar as coisas.


Adriano Messias reverencia assim, em um capítulo,
a ancestralidade yorubá — e, embora seja reduzida sua enumeração a respeito do nome e dos principais atributos
dos infinitos orixás, não reduziu o respeito à alma de tudo, habitado de mistérios. Além do mais, é André quem deixa a promessa de escrever um livro sobre os casos dos orixás... Quanto ao texto deste segundo volume
de histórias para não dormir, o autor "empírico" vai dispensando os travessões de falas e o que cai, nas mãos
do leitor, é como um feature composto por diversas vozes e registros diversos que mesclam as antigas narrativas com
as emoções de André, a narração aos comentários e explicações paralelas, os narradores
— sem jamais perder o fio da meada.

Pois bem: André sabe que os dias serão sempre curtos
e, disposto a estender a noite, atravessa o terreiro
da casa da avó à casinha da negra, com os braços cruzados sobre o peito, cheio de coragem, para ingressar em um mundo fascinante. Ao longe, pios e assobios, um bode
(será bode?) bééérra... e ainda ameaça tempestade.
Eparrêi Iansã!

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Tem mais causo
como esse. As pessoas
de antigamente tinham muito medo de nome feio, de palavrão, sabe?
O povo respeitava mais os mais velhos. Mas sempre uma pessoa ou outra gostava de rogar pragas, o que não é nada bom. Não é, não. Vou contar essa pro zinfio ir dormir, que o dia já vai clareá. Era uma vez
um homem chamado Joaquim Pindaíba que vivia praguejando.
Gritava "desgraça"
por qualquer coisa,
e pedia à "desgraça" que viesse levá-lo embora.
Ele era mestre-pescador
e não tinha medo
de rio nenhum.
Tinha um amigo... »



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