Adriano Messias Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha il. Márcia Széliga Biruta, 2004 92pp. Sabe conversa de mineiro? Tem sempre uma história que a gente não põe muita fé, não, mas fica de ouvido atento para ver aonde é que vai dar. Pois esse livro é feito ânsim: Um tirico de prosa e literatura com o André, um menino-escritor muito maneiro que, nas férias e nos feriados, deixa o cinza de Belo Horizonte para se enfiar vereda adentro no sítio de seus avós — além da cidade de Lavras, a caminho de uma cidadezinha chamada Ijaci, ambas no Sul de Minas [...] entra-se por uma estradinha de terra que ninguém vê — nem o carteiro, podem acreditar —, a qual é chamada Estrada Sitiotopia. Não há placa, nem setas, nem numeração para lugar algum e, se por acaso um andarilho se aventurasse por lá, andaria em círculos até dar novamente de caras com a estrada principal, a asfaltada. Pois, então, nesse lugar, meio distante, meio perto, André ouve histórias, em volta do fogão de lenha, uma madrugada toda na companhia de seu avô — e anota as principais passagens e informações para escrever, depois, aqueles causos. De Lobisomem. Da Mãe d'Água. Do Saci Pererê. E outras: como você nunca ouviu. Imagine tirar os olhos de um gato preto e colocá-los dentro de um ovo de galinha preta, guardando este em estrume de cavalo para ver, um mês depois, nascer um pequeno, mágico e traiçoeiro de um coisa ruim... Ou então, ouvir passar (e rezar para que passe depressa) a procissão dos mortos à porta de sua casa? Mas, uma vez houve uma mulher que abriu a janela... Coisas deste e do outro mundo vivem em uma zona de quase prelúdio, entre a claridade e a escuridão, e já não são raras as vezes que se encontram. Adriano Messias inventou André e tomou partido das lendas, um gênero da literatura da tradição oral em que ocorre a intrusão de elementos sobrenaturais no cotidiano ordinário das gentes, criando assim uma twilight zone brasileira. Seu texto é galopante — ou, melhor dizendo, para ficar no clima —, vem no verdadeiro martelo do Infame e outros assombramentos. Mas, ao contrário do que comumente é feito com esse tipo de material narrativo (estancado como conto mentiroso, curiosidade folclórica), Adriano Messias promove um trânsito instigante entre a presença do contador de causos que viu, ou viveu, as estranhas experiências e os suportes da linguagem escrita, sejam impressos, sejam virtuais. Pois André ouve e lê tudo com interesse e atenção. Mesmo que você diga que essas histórias são manjadas e não assustam mais vivalma, fica o convite para a leitura, de preferência na esteira da madrugada com seus estranhos visitantes — e pode, discretamente, persignar-se. Dominus vobiscum. |
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