O cavaleiro das palavras 
 autor



Luiz Antonio Aguiar
O cavaleiro das palavras

il. Marcelo Martins
Saraiva, 2006
80 pp.


O tempo tornou vestuto um dicionário da língua portuguesa, impresso em Lisboa, no ano de 1877, que veio dar em terras brasileiras com a honraria de seu brilhante figurino: um fidalgo trajando couro carmim, condecorado com douradas letras de traço sóbrio. Guarda ainda na memória o distante caminho da gráfica ao porto, suas pedras lisas sob o som compassado de cascos contra
um forte temporal, e a travessia no mar revolto,
os ratos do insalubre porão, o desembarque na capital,
os primeiros dias de exposição à Rua do Ouvidor.
Não exatamente porque tudo tivesse visto, encaixotado que estava boa sorte da viagem. Mas as palavras, a riqueza das palavras em seu bojo, deram-lhe sempre a visão para o reconhecimento necessário das coisas.

Este hoje-já-senhor, um Cavaleiro das Palavras,
naquela outrora, depois de percalços e injustiças de uso (nunca fora aberto por seu primeiro comprador, imagine!), chega às mãos de um jovem escritor mulato com quem,
por mais de quarenta anos, colabora frutiferamente.

Luiz Antonio Aguiar cria uma homenagem ao mais
celebrado de nossos autores, o Bruxo de Cosme Velho,
com porções de uma realidade conhecida e referenciada,
mas ignora a precisão das datas históricas, como esclarece
no pós-escrito ao livro, a fim de dar curso à fantasia e
aos memoráveis encontros que tem o exemplar do
Diccionario da Língua Portugueza, que bem poderia ter
se autodenominado, diante aos leitores, Moraes. Em função da narrativa em primeira pessoa e do próprio personagem,
o tom do texto se entoa com abundância de expressões, fraseados extensos em ritornello e certo fastio aos incultos.
«O meu acervo é um tesouro. Um repertório. Existe
para ser usado [...] novas palavras são geradas a todo instante, sendo que um dia virão a mim,
entrarão para
o dicionário, assim como todos os rios correm para o mar.»

Ainda há, no texto, uma predileção pelas comparações prosaicas, acentuando o arrebatamento — e até mesmo
a fúria — do dicionário-personagem através de um conjunto
de símiles que, como os melhores relógios de bolso,
marcam o compasso de diversos capítulos.

O guardião de dezenas de milhares de palavras, que por vezes sepultam as entranhas das traças, escapará do abandono e à morte inglória. Às mãos de uma bela jovem, setenta e tantos anos após um suposto sepultamento
como livro velho, o dicionário ressurgirá outro —
uma antigüidade, objeto de admiração e interesse histórico que revelará um segredo de amor aconchegado
entre suas páginas: um poema dedicado à querida esposa
do escritor e ancestral da nova Carolina.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Portanto, meu dileto, diante da minha perplexidade com um mundo que, literalmente, desabava sobre mim, junto com a parede do quartinho, que era justamente aquela à qual o armário ficava encostado, poderia eu cometer uma traição inédita e, talvez, imperdoável, entre a estirpe dos dicionários,
e confessar:
Fiquei sem palavras!
Sem palavras
para exprimir o que via e principalmente para entender todas essas coisas. Fiquei apavorado, sem nenhuma referência para me dizer onde estava, pego no bote de uma realidade posterior aos meus verbetes. Até o idioma que falavam, só depois de muito escutar, fui reconhecer. Tantas palavras novas, uma entonação, um sotaque totalmente diferente do que eu conhecia — mas era a minha amada Língua Portuguesa. Sim, era! Eu a reencontrava, enfim! »


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