A caligrafia de Dona Sofia 
 autor



André Neves
A caligrafia de Dona Sofia

il. do autor
Paulinas, 2006
40 pp.


Na mais alta colina entre as colinas que guardam a cidade, existe uma casa diferente de todas as outras, com paredes decoradas com poemas.
Não haveria quem não pudesse dizer que ali as paredes recitavam, cada canto vivo cuidado com emoção e
a caligrafia em estilo que só Dona Sofia sabia... Mas,
anos sempre em marcha, a velha percebeu que ficaria
sem espaço para escrever os versos que tanto amava.

Com letra de caprichosa moça, a professora aposentada decidiu-se pelos cartões poéticos — prensando
flores sobre o papel, colhendo palavras
com sua florida caligrafia — endereçando-os a
todos os moradores da pequena cidade... Eis então que
a ajuda de Seu Ananias seria de grande valia e entra,
em cena, o protaganista desta renda palavra&imagem
que André Neves teceu:
a história do carteiro e da amorosa leitora de poetas.
E um dia chega e ele próprio recebe um cartão...

Como as paredes da casa de Dona Sofia,
as páginas do livro se abrem, preenchidas por uma caligrafia redonda, cursiva e constante: que o leitor entre nessa casa e descubra, distraidamente ou não, os versos que falam de deslumbramentos, estradas, brilhos, firmamento, primaveras do passado e do presente. São confissões de poetas de variados públicos, agora reunidos sob uma aura romântica e, embora a diversidade das escolhas, parecem mesmo
falar a um só ouvido. Este é um projeto sensível,
um livro para ser lido e relido, e quem se atrever a
espiar mais as paredes da casa=livro certamente encontrará os poemas motores para esta e para outras produções
do autor como se comentassem suas cores e fulgurações,
seus horizontes de leitura...

Mas, quando finda a primeira leitura,
você, talvez tenha, como eu, a sensação
de uma névoa triste de alegria sobre os olhos
junto à certeza de que "um poema partilhado provoca
mais amor, mais amizade", como afirma Elias José, "e que
há muitas razões para também copiar e espalhar poemas". Como Dona Sofia. Que resgatou
e dividiu e multiplicou belezas que os livros guardam.
E sua memória jamais esqueceu.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« Antes que as sombras das montanhas caíssem sobre a cidade no fim de mais um dia de sol, Seu Ananias se despediu, montou em sua bicicleta e respirou fundo, como alguém que vê antecipadamente o que teria de fazer.
Mais uma vez, quando o alvor da aurora surgiu no céu, Seu Ananias começou a percorrer a cidade de casa em casa. Mas não entregava cartas. A cada morador ele contava o quanto tinha aprendido com Dona Sofia e como aquela senhora havia mudado aos poucos a vida da pequena cidade, sem ninguém perceber... »


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