O anjo do lago 
 Socorro Acioli



Socorro Acioli
O anjo do lago

il. Mariana Zanetti
Biruta, 2006
64 pp.


Quem diz que os anjos não têm idade ficará contrariado e surpreso com Ângela e outros anjos, personagens do mais recente livro de Socorro Acioli destinado ao público juvenil, O anjo do lago (2006), na primorosa edição da Editora Biruta, de São Paulo, com ilustrações de Mariana Zanetti, nas quais o azul celeste,
o verde água e o misterioso branco predominam.

Trata-se de uma poética e misteriosa história em
torno das descobertas da protagonista, um doce
anjo-menina-adolescente de 14 anos, que narra em primeira pessoa (quase como confissão num diário íntimo),
sua experiência em desvelar os mistérios envolvidos
na sua primeira missão: proteger o Lago dos Segredos,
mote para a idéia de desvendamento que perpassa todo o livro e só se resolve inventivamente nas páginas finais, deixando curioso o leitor, à espera da resolução e
do entendimento das razões que levam o sereno anjo protetor a realizar a tarefa de cuidar de um lago, quando
a tradição reza que os anjos-da-guarda, pelo menos eles, protegem pessoas. Essa é apenas uma das surpresas reservadas pela narrativa de Socorro Acioli aos leitores habituados a histórias com personagens celestiais de
tão alta estirpe, quer estejam elas nos livros,
nos filmes (Win Wenders foi um dos cineastas que
contou histórias com personagens anjos) ou em outras manifestações culturais, cujo leitmotiv circule
em torno do que se passa em planos outros que não
o da vida empírica, concreta, prática, cotidiana.

Aliás a aproximação com o cotidiano
é uma das virtudes de O anjo do lago.
Os personagens, as ambiências e os objetos
do dia-a-dia dos anjos são quase os mesmos
que o leitor conhece. Ângela tem pais e passa a ter,
no decorrer da trama, um “amigo” que pode vir
a se tornar um algo mais... Sim, porque
nesta história os anjos podem amar, já que
são seres fadados ao amor àqueles ou àquilo que protegem. Neste sentido, o livro pode agradar aos jovens leitores em vias de descobrir o amor, a paixão... Mas não só.

Cada personagem-anjo guarda sua própria idiossincrasia.
Por exemplo: o Sr. Bartolomeu é sério e sábio;
a Sra. Berta é alegre e excêntrica, inclusive no vestir;
o jovem anjo Tiago é belo e talentoso artista.
A exposição das qualidades de cada um torna-se
ainda mais cabível num universo em que esses seres etéreos
escovam os dentes, limpam e organizam o espaço em que vivem, trabalham em instituições como o Departamento de Trabalhos e Missões ou o Departamento do Destino,
espécies de repartições de utilidade pública,
administradoras dos serviços prestados pelos anjos
que descem à Terra para cumprir suas tarefas.
São anjos que até mesmo
lêem livros, inclusive a protagonista.

Ela leva para sua primeira missão dezenas de livros
que, no início de sua tarefa de proteger um lago cheio
de segredos, servirão de fonte de prazer, de aprendizado
e de alimento à sua imaginação adolescente.
Esta dimensão da leitura se envolverá com a escrita, pois Ângela também escreve. Inicialmente um diário, depois...
só Deus sabe o que escreverá, mas o fará bem,
pois esse é o desvendamento de um dos segredos que a vivência na pequena ilha no meio do lago lhe proporcionará.



Miguel Leocádio Araújo
professor universitário, mestre em Literatura Brasileira (UFC)
Daniele Barbosa Bezerra
professora universitária, mestre em Literatura Brasileira (UFC) e pesquisadora de literatura infanto-juvenil

Resenha de
Miguel Leocádio Araújo
e Daniele B. Bezerra *


Confissões
de (um anjo)
adolescente


A temática da leitura
na obra infanto-juvenil
de Socorro Acioli não é inédita. Desde Bia que tanto lia (2004), a escritora tem explorado os encantamentos do mundo da leitura, sobretudo no que diz respeito às personagens-crianças. O que diferencia este novo livro dos anteriores – É pra ler ou pra comer: A história da Padaria Espiritual para crianças (2005),
A casa dos benjamins (2005), O peixinho de pedra (2006) – é que a temática abordada se desloca do universo da cultura e da história cearenses para dar lugar a um vôo bem mais livre em relação aos compromissos com o real empírico, no que concerne à adesão ao contexto histórico e aos costumes de um povo. Dessa forma, a escritora oferece um tipo de narrativa que indicia suas habilidades em criar uma história que abre espaço para o inusitado da representação do possível, desobedecendo a rigidez dos desígnios miméticos da prosa de ficção que muitos insistem em preconizar. Mesmo guardando certos elos com o real, até para poder angariar a cumplicidade dos leitores às situações vividas por Ângela, em O anjo do lago, a opção narrativa (e, neste caso, imaginativa) pelo universo etéreo dos anjos parece nos querer dizer que sobrevoar a história de Ângela é viajar nas asas da imaginação, dos segredos e dos desejos.


Outros livros de
Socorro Acioli
na Vitrine Literária
Visitar o blog
de Socorro Acioli

ir para

comprar

voltar