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2º Lugar Prêmio Jabuti — Melhor Livro Juvenil

Heroísmo de Quixote

de Paula Mastroberti
 Rocco, 2005
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Vinde cá, gente torpe e mal-nascida!
Assaltante chamais a quem liberta
os acorrentados, solta os prisioneiros e acorre aos miseráveis,
levanta os humilhados e dá remédio
a causa dos que necessitam?

Cervantes |
à seda de todos os ruídos
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Confluência de linguagens e inspirações,
o livro Heroísmo de Quixote, de Paula Mastroberti,
é bem mais que a recriação da obra de Miguel de Cervantes,
embora coincidente nos nomes e nas situações que viveram
o cavaleiro da triste figura, sua amada e o fiel escudeiro.
Paira neste provocativo trabalho outro sentido
que se configura pelo ilimitado desejo (pós-moderno, pós-tudo? ex-tudo)
de desapropriar/apropriando-se dos discursos conspurcados
pela tradição das hierarquias bem comportadas.
Pode-se pensar em literatura sampler, ou nos casos de
literatura pirata, tomando o lugar do clássico na literatura
e das séries formativas denominadas literatura juvenil.
O dizer e a técnica aqui se confundem e expõem-se como um processo
de feitura — e avaliação cética, esgarçamento estético, ruídos políticos. Ou nada disso.
A perplexidade para a crítica literária está na mediação ponderada:
voga de circunstância, pastiche avant la lettre ou neo-barroco bem temperado?
Reconheçamos primeiramente que a narrativa não é apenas um enredo, mas sua própria edição,
em um mix de registros, depoimentos, reportagem, crônica social, crítica cultural,
lírica, ácido e cinismo, emborcados por uma espécie de feature para o qual convergem a ambiência
das histórias em quadrinhos underground da década de 1980,
massificadas vinte anos depois, e o ritmo de todas as videografias.
Paula Mastroberti sintoniza a emergência non-stop/no-limits entre os diferentes
códigos que regem as artes. Seu texto e suas ilustrações mantém uma íntima relação de pertinência,
porque compartilham do mesmo princípio de engendramento.
Ranhuras sobre a imagem, a fala das ruas sobre a língua:
pela sobreposição, pelo acúmulo — de todos os padrões.
Em ambos os casos, algo nada calmo evoca
o universo sem cor, mas muito ardente, da série Sin City,
a cidade dos pecados de Frank Miller, pontuado por uma reflexão moral como se vê no drama em
quadrinhos de Watchmen, concebido por Alan More e Dave Gibbons
(não por menos, o livro é aberto e se fecha com citações desses).
Porque é preciso ler esta realidade, o mundo convencional e seus temas éticos
são desmembrados na réplica de uma dimensão alternativa com sua metrópole
sem qualquer particularidade espacial, pois erguida sobre todos os lugares e nenhum deles. São Paulo,
Rio, Porto Alegre? (Que capital será esta? Que marginais são estes que ocupam
o centro da cidade?)
Trata-se de um cenário multifacetário, onde se move o arquétipo
de um esquálido vigilante urbano com seu uniforme prateado e justo,
muito alto, cabelos de um leonino vermelho-vivo,
pálpebras e boca contornados com exagero... e um olho azul e um olho preto encrustados no rosto.
Sua existência parece ser apenas um relance, a ação benéfica que justifica
os tantos nomes que recebeu pela proteção prestada, não se importando em tornar-se
o santo, o "alien", o samurai do espaço, A., Alonso, o Quixote da periferia. Nomes nada significam.
Nascido, talvez, por vontade dos céus neste tempo de informação veloz,
Quixote tem a qualidade de seu heroísmo como um ícone à espera de tradução compreensiva.
Sancho, um jornalista da obscura Folha Virtual, incorpora seu escudeiro que,
com grande senso de oportunidade, lança a brilhante aparição contra os moinhos invencíveis da mídia.
Tal proximidade, porém, o permite flagrar a carência do herói : o reservado sentimento de amor
pela esfinge da moda, Dulci Toboso, é oposto a expansiva compaixão pelas pessoas, de modo geral.
E, sob a pesada maquiagem borrada pelo choro, o cavaleiro é mísero e triste, um pierrô urbano.
Todavia e toda sua vida, o extravagante protetor continua suas ações que passam a
repercutir nacionalmente, surgindo e ressurgindo nos locais mais óbvios, produzindo
sempre dubiedade de interpretação e uma crescente onda de perseguição à sua figura,
muito embora permaneça o mistério de suas intenções. Quixote programa
seu gran-finale, uma rebelião no Presídio Central, o que desloca um acontecimento recente
de nossa História para a realidade alternativa da ficção. Abriremos aspas:
«Os presos confiaram em mim. Eram pessoas, porra! Um policial morre no cumprimento do dever,
e será glorificado por isto. Um altruísta sacrifica a si mesmo para salvar a vida de outro, e — palmas
para ele! Até a vítima de um assassinato terá esquecidos e perdoados os seus mais graves defeitos,
adquirindo assim uma espécie de dignidade. Um criminoso é um condenado que poderá nunca se arrepender
dos seus crimes, mas isso não deve impedi-lo de acertar as contas ao seu modo, se assim o quiser.
São poucos os que conseguem encarar sem medo a própria morte.» Após o evento,
desaparece completamente o ronin e sua estranha dignidade.
Um olhar preto e azul resta vivo apenas nos sonhos de Sancho e dentro de uma pasta
amarela arquivada dentro do laptop...
Paula Mastroberti, então, insufla na trama o tom de meta-ficção,
com as sobras das sobras daquele universo quixotesco. O jornalista das altas rodas
em que Sancho se transformou junta-se ao aclamado e afetado Cid H. Benengeli para
a produção de uma película: apropriação: divertimento: Dulci Toboso por Dulci Toboso:
melhor roteiro: melhor direção: melhor ator: desempenho memorável
ao símbolo açucarado da transfiguração do herói para as massas.
Comparado ao outro em seu lugar, no filme, Alonso era: é "retalho grosseiro de textura urbana".
Mas, a história que desejam contar tem outras leituras.
Outras leituras merecem filtrar o livro Heroísmo de Quixote,
enquanto nos apropriarmos (também nós) das palavras d(O idiota) de Dostoiévsky:
É difícil julgar tal beleza: eu ainda não estou preparado. A beleza é um enigma.
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