Caio Riter 
 O rapaz que não era de Liverpool



Caio Riter
O rapaz que
não era de Liverpool


il. da capa: Graça Lima
Edições SM, 2006
128 pp.


Os olhos castanhos de Marcelo
eram únicos naquela família e
não havia mais como negar as evidências. Na aula de Biologia, o professor explicara: características recessivas, características dominantes — e as ervilhas rodavam à mente. A velha desconfiança. Nenhuma foto da mãe esperando
por ele, nenhuma com Marcelo fechado em seu ventre.
Seus olhos não tinham a cor do mar, a cor do céu.
Era só um Marcelo, adotado. E só.

Tristeza? Desespero? Amargura,
porque viveu quinze anos sob a custódia da traição?
O que sente Marcelo? O que pensa?
Seus pais, ou melhor, Inês e Pedro Paulo não tinham
esse direito. De trocar uma história por outra. E ele caminha pelo quarto, como se tudo ali fosse diferentemente novo.
Estranho. No entanto, tão familiar. Ele, a não-exceção
às regras de Mendell, o filho de coração, o rapaz que
não era de Liverpool. Qual a sua verdadeira história?
Os Beatles eram mesmo, realmente e apenas quatro,
como Pedro Paulo, Inês, Ramiro e Maria. Alguém sobrava naquela casa. Era ele. Ali, fora da questão. Olhos nos olhos. Todas essas pessoas solitárias, de onde elas vieram?

Muita gente afirma que toda uma vida pode passar,
diante de nossos olhos claros, escuros, castanhos, azuis,
não importa —, como um filme em alta velocidade.
Caio Riter traduz essa sensação para o leitor,
emprestando voz ao personagem, pois é Marcelo,
em primeira pessoa, quem narra o torvelinho
de imagens e de suas emoções em fragmentos, e
igualmente lançando mão das técnicas CINEMAtográficas
para compor a organização do texto. O livro é
dividido em cinco capítulos, nos quais a ação no presente
se estende por pouco mais de uma semana e alguns dias. Esse plano é interrompido por cenas recuperadas
à força das digressões como as memórias de fatos isolados
e também aqueles instantes anteriores à conversa com
a mãe e à derradeira confirmação, que marca o início da narrativa, às primeiras linhas do capítulo um — destaque »

Ora, ninguém mais se espanta com as idas e vindas
dentro de um texto ou o congelamento da ação com o uso
do FLASH-BACK: recurso que ajuda a erguer estruturas
não-lineares de efabulação. Mas é exatamente na interpolação de diferentes planos que se confirma
a originalidade do autor e um laborioso trabalho técnico.
Caio Riter interrompe por 17 vezes o fluxo dos capítulos,
com cenas numeradas e subtítulos, em que o leitor salta
atrás para outros tempos e espaços. As lembranças entram como INSERTS encaixados pelo incurso do MATCH CUT:
um elemento do instante presente (um nome, uma foto,
uma palavra, uma dor) deflagra a memória de alguma coisa importante dos quinze anos na juventude de Marcelo.
Por sua vez, a saída das 17 cenas é feita sem
avisos ou abruptas separações, flutuando o pensamento
em efeitos de FUSÃO com o presente.

Da estrutura geral da obra à estrutura das frases,
a linguagem privilegia um ponto de vista e uma fala
em perfeita síncope. Das emoções. É a pontuação rígida e seca que pára. O pensamento entrecortado que se permite. Das lacunas entre palavras ao fosso existencial. São fendas, senhas: por interrupção, intermitência: interrogações.
E, a todo momento, torcemos por Marcelo.
Pela resposta, por sua resposta, pela paz. Céu e mar.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


1º Prêmio
Barco a Vapor 2005


« — Não, Marcelo,
você não nasceu de mim!
Ela disse. Falou
o que eu queria-temia escutar. Falou.
As palavras foram claras. Sem sombras.
Sem dúvidas.
A confirmação ali, naquela frase tão simples. Tão. Não era minha mãe.
Não era. E, no entanto.
Estendeu a mão.
A mão que muito carinho já me fizera. A mão. Tremia? Queria ser toque. Acarinhar meu cabelo, daquele jeito calmo que eu tanto gosto. Gostava.
Leve toque
em meu braço.
Fugi.
Lágrimas
nos olhos dela.
E nos meus.
Fugi
para meu quarto.
Único abrigo naquela casa que
agora me parecia por demais estranha. Ela não era minha mãe. Mas e se? Nao, não era.
Suas palavras, naquela voz que não tremeu, naquela voz que, talvez, há muito tempo desejasse ser, e foi, revelação,
não deixavam dúvidas. Você não nasceu de mim. De quem, então?
Ela respondeu apenas
à primeira, à principal, pergunta. Muitas outras agora me invadem
e, tenho certeza,
me invadirão
para o resto da vida. »


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