Raimundo Matos de Leão 
 De cara para o futuro



Raimundo Matos de Leão
De cara para o futuro

il. Vincenzo Scarpellini
Edições SM, 2006



Viver os dezesseis anos, em uma pequena cidade no interior-sertão do país: assim começa a novela de Gabriel, o Biel: repentinamente órfão de pai. É como
virar a moringa e toda água entornar para fora do copo...
O jovem não se conforma com a ausência que fará
o velho forte e festeiro que não media esforços para trazer novidades para o lugar onde moravam, mas também
um pai autoritário, cercado de correligionários políticos, que obrigava o filho a cortar o cabelo num seco estilo militar. Jamais um cacho pôde desgrenhar-se solto no desenho de uma nova moldura para seu rosto: em meio à tristeza, Gabriel sente algum alívio por estar livre. Os sentimentos jovens formam um nó difícil de desatar, um sofrimento só
de quem se frustra porque não mais poderá mostrar
que não será o fracasso que o pai tanto temia.

Embora predomine uma ordem cronológica, a passagem pelos dezesseis anos de Gabriel é regada por um jogo entre o instante dos fatos e o passado de reminiscências familiares, em uma intersecção de seqüências em flash-back. É certo que os capítulos do livro poderiam ser lidos de forma isolada, uma vez que Raimundo Matos de Leão os compôs como contos, ou quadros fotográficos em um álbum vigiado pela memória. A saber, seus títulos, simples — como “O pai”,
“A turma”, “O cunhado”, “A bibliotecária”, “O viajante”,
“A namorada”, etc. — funcionam apenas como legendas, pois o que interessa mesmo é o núcleo de relações vividas
entre Gabriel e as demais pessoas à sua volta.

As descrições e a ambientação podem ser consideradas
um ponto alto da narrativa e, destas “fotografias”, emana o marasmo de uma cidade em contraponto com a ebulição de um jovem; ao fundo, a transformação cultural de um país envolto em uma ditadura política e crises econômicas.
O tédio dos domingos de 1966, a irmã Gilca e Alencar pregando ordem e acomodação para um seguro pé-de-meia; um passeio ou outro, pelos arredores, quando se gostava “então de buscar umbus e cajus caatinga adentro”;
o alto-falante na praça, o futebol e a ave-maria no rádio;
a obrigação de conhecer as mulheres da rua da Faísca... e
os dias da semana sempre iguais surpreendidos por eventos que poderiam passar desapercebidos: nada é à toa na vida, nem mesmo visitar a vazia bibilioteca municipal,
numa tarde de chuva, a maravilha da coisa linda de blusa molhada, despenteada, da professora de português; o som dos Beatles, Chico, Caetano, Valdick Soriano — e, é claro, o iê-iê-iê na vitrola portátil do primo de calças Lee importadas;
o primeiro beijo na garota de biquini...

Presentes da vida não tardam: no caminho
que o caminhante faz de cara para o futuro,
Gabriel à descoberta do mundo que o pai lhe deixara:
o sonho de conhecer o mar, outras paisagens pessoais.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« O garoto era um peixe fora d'água naquela lagoa salobra, a cidade; naquele aquário, a família. Interessava-se cada vez mais por assuntos que não despertavam a mínima curiosidade nem da família, nem dos conhecidos. Nem mesmo os amigos compreendiam seus devaneios, desejos. Por mais que explicasse, não conseguia traduzir o que vinha de dentro dele. Suas idéias eram tachadas de extravagantes e esdrúxulas. Gabriel sofria com isso e se deixava atrair pelo desconhecido, pelo distante. Certo dia, ao afirmar que estudava para conhecer e não para ter uma profissão, causou espanto. A mãe abriu a boca sem conseguir contestar a afirmação. Pediu apenas para que ele não saísse por aí, falando coisas sem pé nem cabeça. Temia pela sorte do menino! Apegava-se aos santos e anjos na tentativa de trazê-lo para o caminho das certezas. »


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