Rogério Andrade Barbosa e Graça Lima Como as histórias se espalharam pelo mundo DCL, 2002 Como as histórias se espalharam pelo mundo? Basta olhar bem a capa deste livro para pensar e adivinhar... O que, afinal, histórias e rato têm em comum? Esse pequeno roedor vive indo e vindo, toca adentro, toca afora, para guardar a comida roubada aos humanos. Assim, não é estranho que também possa guardar conselhos, falas, mexericos, cantos e histórias: e eu arriscaria a dizer: sua "provisão de repertório" para acalentar a ninhada... Mas este não é um rato qualquer. Braços abertos em adoração, sobre um refinado tapete, calota rubra na cabeça, vestindo túnica de idêntico vermelho. Um rato muçulmano, reverenciando aquele que passa acima de todos os vivos ;-) Rogério Andrade Barbosa é um autor bem conhecido da literatura infantil e seu nome está intimamente ligado às narrativas africanas de tradição oral. Podemos imaginar uma grande aventura adiante e abrir o livro: vamos assim participar das andanças de um pequeno roedor por aldeias, cidades, florestas, savanas, desertos, ilhas e rios da África. Como corre, se esgueira e não se cansa, o ratinho atravessando dia e sombra da noite, atravessando texto e imagem, através de paisagens — as ilustrações-postais de Graça Lima — que nos fazem conhecer o cotidiano das pessoas, seus costumes, as plantações e o comércio, suas cores, danças e tramas. O livro apresenta uma recriação suave e original sobre um motivo popular que já ouvi contar, em modos de lengalenga ou fórmula para principiar história. Certamente, parte de lenda — ou ainda: que tenha virado lenda — presenteada pelo povo Ekoi, da Nigéria. No entanto (rôo-me, se não disser), os para-textos do livro, como a apresentação e a sinopse da quarta-de-capa, esmaecem as cores da leitura :( e equivocam-se em relação à perspectiva do texto, mas vale lembrar sempre: «Raro é o sonho que começa e acaba na mesma noite. A verdade não está num só, mas em muitos sonhos.», diz um antigo provérbio. Talvez, por essa razão, sentimos vontade de ir-e-vir à viagem-leitura, outras vezes e tantas mais para descobrir nas bonitas descrições um jeito e um pensar daquele povo diverso. |
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