Amanhã, numa boa 
 Faïza Guène





Faïza Guène
Amanhã, numa boa

trad. Luciana Persice Nogueira
Nova Fronteira, 2006







PRESS-RELEASE — Em seu primeiro romance — um best-seller na França com traduções previstas para o japonês, italiano, espanhol e holandês, entre outros — a autora Faïza Guène conta a história de Doria, uma adolescente de 15 anos, filha de imigrantes marroquinos que mora em um conjunto habitacional chamado “Paraíso”, no subúrbio de Paris. Certo dia seu pai sai de casa e volta ao Marrocos para tentar, enfim, ter um filho homem com uma outra mulher. Doria cresce amargurada com esta figura pa-terna, que nem lhe disse adeus. Por isso, vive às turras com sua identidade: é uma estrangeira no mundo dos europeus, mas também entre os imigrantes. Sua mãe, Yasmina, é analfabeta e, além de trabalhar como arrumadeira num motel de quinta categoria, recebe apoio da assistência social para sustentar a casa. Yasmina acredita que se o marido foi em-bora era porque estava escrito, era o destino. O que deixa Doria inconformada. Com muito humor, a personagem narra a história como se estivesse escrevendo um diário e constan-temente faz referências a personagens de histórias em quadrinhos, programas de TV, artistas internacionais e até mesmo supermercados: Doria se compara a um produto que pode ser trocado a qualquer momento. — Nova Fronteira


PALAVRA
DO
LEITOR


Sabemos, a partir da resenha da própria editora, que
o livro infanto-juvenil da jovem autora de origem argelina, Faïza Guène, já é um sucesso mundial. Traduzido para inúmeros idiomas, Amanhã, numa boa já alcançou a cifra de 200.000 exemplares vendidos, somente na França.
Mas o que explica este sucesso?

Penso que esta questão envolve uma discussão bastante atual que ultrapassa o papel da leitura na formação dos jovens e diz respeito, fundamentalmente, à necessidade que as sociedades, marcadas por conflitos violentos (sobretudo de ordem política), possuem de discutir e vocalizar as diferentes versões sobre os confrontos que vivem, através de narrativas comuns — o que configura os chamados contra-relatos estatais, dentro de uma perspectiva da literatura de testemunho. Se, por um lado, temos o discurso oficial do Estado, que formula e impõe um discurso único aos cidadãos, por outro, temos a literatura que, atuando nas possíveis brechas, nos oferece outras leituras do mundo.
E é isso que faz esta jovem autora.

Escrito em primeira pessoa, conhecemos, ao longo do romance, os conflitos vividos por Doria. Ela é uma adolescente de 15 anos, descendente de marroquinos, moradora de um paupérrimo conjunto habitacional, localizado em um subúrbio de Paris. Seria apenas o relato de uma adolescente típica do mundo contemporâneo — que passa os dias vendo televisão, completamente desinteressada dos estudos — e descrente de todo e qualquer organismo oficial. Doria questiona, o tempo todo, o lugar dos descendentes de imigrantes na atual sociedade francesa.

O transitar entre duas culturas que, na maioria das vezes acaba por conformar um não-lugar no mundo, é posto em cheque por Doria. Na sua relação com a mãe, com o pai que a abandonou, com a assistente social, com os vizinhos, enfim, com todos os seus prováveis pares, a jovem formula uma visão de mundo bastante crítica, mas aberta às possibilidades (ainda que pouco perceptíveis) de transformação. Assim, a adolescente que, lá pelas primeiras páginas do romance, afirmava que não importa “o que quer que você faça vai sempre se ferrar, porque amanhã, tudo igual”, termina seu relato dizendo — “Agora vou falar diferente. Vai ser ‘amanhã, numa boa’, porque tudo vai melhorar. A dona Burlaud tinha mesmo razão: com o passar do tempo, quase tudo muda.”

A trajetória vivida por Doria resgata uma forma de consciência política que, para obtenção de uma mudança revolucionária, aposta na incorporação total e efetiva das minorias. “Eu vou encabeçar a revolta do Conjunto Paraíso. Os jornais vão anunciar “Doria incendeia o Conjunto”, ou então, “A revolucionária do subúrbio brinca com fogo e explode a cidade”. Mas não vai ser uma manifestação violenta, como no filme O ódio, que não acaba muito bem. Vai ser uma revolta inteligente, sem violência nenhuma, onde todos vão se rebelar para serem reconhecidos. Não tem só o rap e o futebol na vida. Como Rimbaud, vamos todos trazer, dentro de nós, “o pranto dos Infames, o clamor dos Malditos”.

Lara Leal

Comentários
de Lara Leal
* Doutoranda em Estudos de Literatura PUC-Rio



« Acho que fiquei assim desde que meu pai foi embora. Foi pra longe. Voltou pro Marrocos pra casar com outra mulher, provavelmente mais nova e mais fértil que minha mãe. Depois de mim, mamãe não conseguiu mais ter filho. Bem que ela tentou. Quando eu penso que tem muita menina que engravida, sem querer, na primeira transa... Papai queria um filho macho. Coisa de orgulho, por causa do nome, da honra da família, e mais um monte de razões babacas. Mas ele só teve uma filha. Eu. Digamos que eu não correspondesse exatamente à expectativa do cliente. E o problema
é que a coisa não é
como no supermercado:
não dá pra trocar.
Então, um belo dia,
o cara deve ter percebido que não adiantava insistir com a mamãe,
e se mandou.
De repente, na boa.
Só lembro que eu
tava assistindo a um episódio do quarto ano do Arquivo X, que eu tinha alugado na locadora da minha rua. A porta bateu. Da janela,
vi um táxi cinza
indo embora. Só isso.
Já faz mais de seis meses. A caipira com quem
ele casou já deve estar grávida. Aí, eu sei de cor o que acontece: sete dias depois do nascimento, eles vão festejar o batizado e convidar
todo mundo do vilarejo.
Uma orquestra de
sheiks velhos, com tambores de pele de camelo, vem especialmente pra ocasião. Vai custar
uma grana — toda
a aposentadoria
de operário da Renault. Então, eles degolam um carneiro enorme pra dar um nome ao bebê. Aposto que será Mohamed. »




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