Nilma Lacerda 
 Pena de ganso




Nilma Lacerda
Pena de ganso

il. Rui de Oliveira
DCL, 2005


Estefânia viajara a Portugal para vender as terrinhas que recebera de herança. Fora grávida e voltaria com a filha nos braços. Foi assim: a pequena Aurora nasceu no mar, sob o juramento e a desconfiança
de que não veria a luz do outro dia. Daí
veio-lhe o nome para contrariar a sorte...
Desde quando se habituou a conhecer-se gente, via
Péricles e Augusto, os irmãos, irem e voltarem para escola
e, depois, passarem horas sobre os cadernos e livros de estudo. Em casa, Aurora era só quintal e cozinha, ajudando a mãe nos trabalhos de cuidar das galinhas, recolher os ovos, vender dúzias, regar couves e dálias, descascar batatas para o almoço e o jantar. O pai era um homem batalhador mas, um dia, os filhos homens seriam doutores. No quintal, Estevão cantava orgulhoso e bicava forte. Só mesmo
Moleque para ser um cão companheiro... E era assim
simples e ordenada a vida daquela família.

Aurora era menina, não podia ir à escola como os irmãos. Mas a prima Isolina ia. É que os tios não tinham outros filhos com quem se preocupar. E o primo Gastão, que tem doze anos, por que não vai? Pois seu pai tem a fábrica e ele precisa ajudar. Mas, e ela mesma: também não poderia ir? Não, porque tinha os deveres domésticos e aqueles ataques, um ponto escuro no olho apagando o mundo, a língua enrolando, poderia sufocar. Era preciso viver ao pé da mãe.

Escrever Eu sou Aurora — é um desejo só
a movimentar o delicado romance de Nilma Lacerda que resgata, com honestidade e emoção, o plural das casas,
dos costumes e das tramas familiares em uma época em que criança não partilhava as conversas entre adultos, em fins da década de 1920, no Rio de Janeiro. A textualidade transborda vozes e o enredo é então perpassado por diversos planos, como bem soa e sói acontecer à literatura inventiva: refluem e cruzam-se a memória particular de cada personagem
junto à memória histórica sobre a resistência da escrita —
a leitura, a caligrafia, o pensamento escapando-refugiando-se do dedo ao papel, ao bordado, também à tela digital...

A linha do tempo é assim uma sobreposição,
um novelo de coincidências e sonhos. E, entre
esses fios, a narradora habilmente projeta-se na escrita literária, ultrapassando as barreiras da ilusão
e do afastamento com a matéria que narra »
Evidentemente, não é Aurora quem poderia narrar-se, nem mesmo a velha Casemira, nem Nilma: o que aqui se lançou é a cerda de um mistério, pena de ganso ao branco do papel, como nova cor, "carinho de vida no canto escuro da alma".

Os antigos consideravam a pertinência como
uma qualidade de semelhança — e esta relação, quem dirá, alquímica entre o texto e a ilustração, é plena:
Rui de Oliveira utilizou lápis litográfico, grafite e crayon
para representar a aspereza da qual emergem os sonhos
de Aurora. Muitas imagens são desdobradas em trípticos ou mais páginas, dramaticamente revelando cenas.

Nenhum episódio vem sobrar à leitura,
somente uma esperança: por Aurora e nossa própria necessidade de querer continuar, querer mais: capítulos
que uma carência íntima pede — e só podemos intuir.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« O mar entrava pelos olhos de Aurora, derrubava tudo que era conhecido e próximo, inundava a alma dela com a vontade de fazer como o pai ou como os irmãos: ler, escrever! Escrever era mais importante ainda, porque deixava traço, enchia o dedo de cor. Depois que Péricles virou o tinteiro e Aurora mergulhou o dedo na tinta, o corpo dela não se esqueceu mais disso:
o dedo da gente pode escolher um caminho,
ir andando por ele e deixar registrada a marca dessa passagem.
A tinta na mesa, Aurora teve que limpar, mas se fosse uma folha de papel, ela poderia tê-la guardado, as manchas e
o traço que fez falando a ela de coisas da vida. »



« Não é Aurora
que sonha a viagem à Mesopotâmia, Casemira. Por mais que deseje,
ela não possui os meios para fazê-lo.
É uma outra pessoa,
uma outra pessoa que, depois dela, vai poder fazer essa viagem, inteira, de frente para trás, de trás para a frente. »


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