Gláucia de Souza Bestiário il. Cristina Biazetto Projeto, 2006 Na busca de uma assombrosa elegância, que nos trouxesse proveito e ensinamento, os séculos imprimiram nos velhos livros, nas iluminuras de códices desaparecidos, nas paredes de átrios e clautros, estranhas criaturas como que saídas de um sonho: sereias, grifos, homúnculos, centauros e outros mais que, durante a longa Idade Média, possuíam uma existência própria, pouco importando se real ou imaginária, guiando a inspiração e a fé em Deus. Quem sabe, a idéia até soe novidade à sensibilidade atual: santos e monstros conviviam fabulosamente em harmonia porque, afinal, acreditava-se, creia-me, que todos foram por Ele criados. À galeria de figuras fantásticas e disformes, dava-se o nome de Bestiário: uma compilação de textos ilustrados que, agora, Gláucia de Souza e Cristina Biazetto reinventam em uma caprichada produção. O papel reciclado evoca o tempo distante, as imagens traçadas apenas em preto apresentam-se no interior de molduras, como pequenos quadros, acompanhando 23 poemas sobre os seres que povoam o imaginário popular presente na literatura universal. Renovada também é a inspiração de cada verso. A simbologia, esquecida da antiga força doutrinária, expressa uma busca pessoal por compreender a existência em seus momentos de onírica viagem. O eu-lírico confessa deixar a si mesmo, da casca à máscara de um escaravelho, por baixo das águas floridas do instante-agora... Eu-lírico feminino que flui como a serpente, a bela, a Lady Frankestein, ora mergulhada em incertezas, ora agarrada às crinas curtas de Pégaso. Eu-lírico cotidiano no vôo dos dias, feito mosca, vampiro ou verme (ah, pois é ao ver-me que vejo você!). E é no infinito labirinto do devaneio em si que a voz liberta a parte humana de cada animal que deseja partir. Forma e forja juvenil, certamente. O livro é aberto por um breve prefácio de Ricardo Albuquerque Arnt, médico próximo da mitologia, da cultura clássica e da história medieval. Nas páginas finais, um glossário literário reúne e expõe em verbete as criaturas queridas do poetar de Gláucia de Souza. |
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