Georgina Martins 
 O menino que brincava de ser



Georgina Martins
O menino
que brincava de ser


il. Pinky Wainer
3.ed. DCL, 2005


Dudu é o bom menino que
o pai quer ver jogando futebol como um campeão. E Dudu vai e faz um gol, depois outro e mais outro para seu time.
No entanto, a vitória é outra e chama-se decisão:
não precisa provar nada, nem enganar ninguém que não gosta de bola. O pai poderia até bater nele, colocar de castigo... Mas ele não iria mais jogar.

Das escolhas que a vida ensina, Dudu tem à frente
a mais árdua: ser como se é, sem sofrer consigo ou
com as provocações do mundo à sua volta. Desde sempre,
o menino gostava desta brincadeira, a brincadeira de ser
o que a imaginação permite: ora fada, ora bruxa, até
mesmo princesa. Meninas não podem ser príncipes, guerreiros e outros personagens valentes? Podem, mas
quem vai entender? A família fica toda armada de preocupações, a professora diz apenas que isso passa,
Dudu tem apenas seis anos, o endocrinologista
nada encontra de anormal e recomenda outro médico
que sabe cuidar de pai e mãe.

Apresentando múltiplos pontos de vista, na interação personagem a personagem, Georgina Martins constrói um discurso narrativo que não receita, nem doutrina comportamentos: deixa a história ser seu próprio caminho e, nela, Dudu irá emancipar-se dos sofrimentos, escolhendo
ser o menino de sempre, mesmo quando tem a chance,
a seus pés, de passar sob o arco-íris três vezes.

Na quarta de capa, entre os destaques na imprensa,
o escritor João Silvério Trevisan escreve:
«O livro é lindamente ilustrado e coloca muitíssimo bem
a questão da viagem identitária que provoca tanto exílio
em crianças consideradas diferentes.»
Nas ilustrações, Pinky Wainer é primorosa — e o projeto gráfico faz o livro brincando
ir para

comprar
de ser flip-book:
passando rapidamente as páginas,
Dudu parece voar, bailando entre estrelas, brincos, colares, vestindo fantasias
sem jamais perder a própria identidade.

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« O doutor Psicólogo colocou um monte de brinquedos para ele brincar enquanto conversavam. Sua mãe esperava, ansiosa, do lado de fora. Apesar de insistir muito, o dr. Psicólogo não a deixou ficar dentro da sala.
— Dudu, qual é a sua brincadeira preferida?
— Gosto
de brincar de ser.
— Brincar de ser? Será que eu conheço essa brincadeira? Você pode me explicar como é?
— É assim:
quando a gente brinca, a gente inventa que é outra coisa; quando eu vejo um desenho, eu brinco de ser aquele personagem mais legal do desenho. »



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brincava de ser: uma narrativa de liberdade

por Luciane Hagemeyer


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