Elias José 
 Poesia é fruta doce e gostosa




Elias José
Poesia é fruta
doce e gostosa


il. Cristina Biazetto
FTD, 2006


«Sempre que alguma fruta desperta um poema,
ela volta mais saborosa, mais colorida, mais cheirosa e macia», afirma Elias José que colhe versos dos pomares de
sua infância mesclada à imaginação madura. São
duas dúzias de textos dentro de um livro-cesto:
falam do tempo de aromas pelos ares, das formas
e das cores, com água na boca e um quê
de saudade de comer fruta no pé; resgata impressões, muitas vezes, com um toque de travessura.

Como sementes a germinar na imaginação do leitor,
pequenas idéias são lançadas de quando em quando.
Quem já viu um pé de damasco, um pé de tâmara?
Vi sempre damascos amarelos
e sempre secos e belos.
Sempre vi tâmaras estranhas
mas meio desidratadas.
Da raridade, Elias inventa, ao som do nome, um príncipe
e uma dançarina de mil e uma noites encantadas.

Todos os poemas tem o sabor de desdobramentos,
um discurso de rememorações e histórias que se invocam, por exemplo, ao velho veneno da maçã, os amores por uma amora e os aromas de Roma, ou ainda os rubis de princesa escondidos numa caixinha de jóias que é a romã. O poeta aprecia as paranomásias (o quê?) - os trocadilhos que
nos fazem descobrir palavras dentro das frutas:
é macia a melancia, tem também amor o morango.

Cristina Biazetto, a ilustradora, parte as frutas
no mesmo jogo: mostra o que há dentro e a casca fora, troca imagens de lugar, retraça céu e chão. Uma velha ainda é um cacho, talvez viúva, que vi sentada num cacho de uvas. Jabuticabas nas árvores e nas roupas que vestem as crianças, carambolas que viram estrelas e corisco, laranja que é mar para o navio carregadinho, abacaxi que é rainha — y viva, la piña como una reina!

E suge um mistério sério:
onde andará o bicho da goiaba
quando não é tempo de goiaba?

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



CARAMBOLA

Que cara esquisita
tem a carambola!
Que jeito estranho
tem a carambola!
Parece que diz:
— Não me amola!

Parece frutra de plástico
ou feita de cera.
Toco e cheiro a carambola
e ela nem me dá bola.

Pra comer, até bem madura
eu não gosto, não topo!
Mas transformada em suco,
bem geladinho e doce,
encho todo o copo
e refresco o corpo.

Caramba, como é bom
o suco da carambola!



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