Pererêê Pororóóó 
 Lenice Gomes




Lenice Gomes
Pererêê Pororóóó

il. André Neves
DCL, 2005


Porque pulam, crianças brincam e jogam artes que nem saci cantando pererêêê pororóóó
na lembrança
de velhas histórias-que-eu-quero-ver. E saci
lá é coisa que existe? Vô Romã assegurou
que viu uma porção, quem sabe,

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura

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« Para um menino deslumbrado,
Raro é não inventar nada.
Diva, beirando o olhar,
Vê o movimento do menino.
Chega bem perto dele,
Entrando rápido nessa teia.

Puxa conversa, clareando idéias.
Versos, agora, dançam na menina.
Gestos de sacis vieram nos passos,
Tecendo em Raul gostosas lembranças.
Livres... Vôos de pirilampos.

"Era pequeno e minha rendilhava
Histórias de sacis.
Eu brilhava inteiro...
Ora preto, ora vermelho
E voava que nem matita perê." »

dez sacis na cumeeira de um velho casarão.
No vamos-que-vamos-não-vamos, Raul e Diva decidem ir pra crer, sacodindo o medo pra trás. Anoitece, é hora de estrelas
e, lá dentro, três sacis rodopiam...

Assobios fortes fazem
um mistério seguir outro mistério pois,
num estalo, os filhos do medo de assombração - que são os sacis - desaparecem.
Os meninos tiram versos e adivinhas,
vão trovando a língua e travando um desafio para os três diabretes. Coisa de imaginação ou proeza, como tudo pode terminar?

Como num repente, galope ou martelo,
o texto de Lenice Gomes é concebido para
uma leitura em voz alta forte e ágil: adquirindo
a musicalidade de seu sotaque, viste,
o que lhe confere coerência e emoção. A autora é um saci de versos e improvisações, mestra de folia rendilhando o leitor-ouvinte num fio espiralado costurando conversas.

André Neves conspira em favor do leitor e sopra-lhe
a resposta de todas as adivinhas naquela porção de letrinhas, recortadas
e soltas sobre a ilustração, que caracterizam seu trabalho.
O que o texto não dá, ele entrega: vejam só que, antes de sair
para presepar no velho casarão, Diva conta a Raul
que havia prometido à mãe voltar rápido para casa,
que ia num pé e voltava no outro. E emenda:
Ela até cuspiu no chão.
O ilustrador lança letras, à moda de rodapé, para que não seja
cuspo a debalde ;-) e inventa fala para a mulher: "Volte antes de secar".
Completando o texto, as imagens possuem seu próprio assobio.

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