Senhora rezadeira 
 Denise Rochael




Denise Rochael
Senhora rezadeira

il. da autora
Cortez, 2004


Existe paisagem tão cercada das grandezas do mundo que os olhos vão longe e voltam cansados, cobertos de poeira. Existe o norte de Minas Gerais e, lá, entre
montanhas de pedra, o Vale do Jequitinhonha. Lá, uma cidade: São Gonçalo do Rio Preto que Denise conheceu. Existe o angu quentinho co'a pimenta malagueta e
uma vida sem igual, quase parada.

E o causo aqui é quebranto, mau-olhado, coisa que encosta, desaninhando o ânimo das gentes. Que isso só se resolve mesmo do lado de cá entre quem vive, só Nossa Senhora para dar santidade. Quando o menino caiu ânsim os olhos de não querer mais brincar, nem nada, a mãe acodiu com vó Miranda benzadeira. O mal vai embora, como as saudades do que não se viveu, para a água abaixo do rio 'té o mar...

O texto de Denise Rochael é manso, muito simples e vagarosamente terno para falar de silenciosa mineiridade. Talvez porque tenha aprendido que o tempo é necessário para se conhecer os mistérios e faz bonita a descrição
de Vó Miranda em seu ofício de pedir a Deus
ajuda para quem precisa.

"Em nome do Pai,
do Filho e do Espírito Santo.
Amém."

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura



« — Amanhã bem cedo levo você pra vó benzer, que essa hora,
com o sol entrando,
não se benze não, ou
o mal fica guardado
e não vai s'embora.
A mãe acende
o fogo do fogão a lenha
e esquenta-lhe um banho de folha de alecrim.
O cheiro
gostoso da planta entra
de mansinho em seu corpinho quente
e vai acalmando
seus olhinhos caídos. »




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