A verdade pêra quê, Cousa que nam aproveita E avorrece, pêra que he? E pois agora aa veerdade
Chamão Maria Peçonha, E parvoíce há vergonha, e aviso aa roindade, peitai a quem vola ponha.

Gil Vicente |

nasceu um pé de Roseira onde a moça mijou!
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Vivo de viver derramando sons, palavras, melodias, trilhas de outras leituras sobre os livros
que possuo. Salto e intercalo pontos de reticência que'inda agora a música de Nino Rota
me toma numa pulsação trágica. Delicada Julieta, da película de Zefferelli,
quem foi mesmo que cantou que tu tens água em demasia? Ninguém... O bardo inglês falava a respeito de outra jovem,
doce Ofélia
mergulhada entre os nenúfares. Ouvi suspiros seus em seis pontos de um círculo acústico na
bela peça de Gerhard Rühm.
Duas, uma dezena, dúzias de donzelas singulares
percorrem os paços de nossa imaginação, cativada suavemente pelas histórias que venceram o
tempo e voam por aí livres. Doce é também a voz de Ana Salvagni,
uma gota pura que o raio laser fere e extrai preciso do disco compacto. Porque mulheres e flores
sempre combinam, com ela ouvi cantar
A roseira, composição de Waldemar Oliveira e Luiz Oliveira, que narra a estranha sina de
uma terra, quando o mundo andava em guerra e ninguém mais se entendia, mas...
Tudo se modificou Quando alguém anunciou Disparado na carreira: Nasceu um pé de roseira Onde a moça mijou!
Onde antes só havia Desolação e tristeza Pouco a pouco a natureza Alegremente sorria A vegetação crescia
E um riacho se formou A água tanto aumentou Que fez uma cachoeira Nasceu um pé de roseira Onde a moça mijou!
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Fragmentos assim que flutuam à memória compõem um horizonte de recepção
preparando-me para a leitura do livro inspirado de André Neves, Maria Peçonha,
mas permaneciam ignorados até encontrar-me com elas. Primeiramente,
Maria Flor transformando retalhos em bonecas de pano, com tamanho zêlo e
mãos trêmulas que muito comovem: donzelas brasileiras fazem renda, bordam,
costuram com charme de resignação, a vida é sua própria arte, sua própria parte.
E Maria Flor tem carinho pelas mais miudinhas e um segredo que seu povoado
suspeita ser por maldição. Chegara naquela cidade em circunstâncias estranhas
e alheias à vontade de uma guria com pouco mais de quatro anos de idade,
virada em lenda pela boca dos mais velhos. Quando pequena, Maria tinha o cheiro
da flor de açucena e, prodigamente, onde urinava floria. Mas, mocinha,
Maria considerou por bem não chamar tanta atenção pois a vergonha despertava-lhe
um senso novo de decência. As cores e os perfumes esmaeceram.
Pois bem: André Neves criou uma identidade e um passado para a figura
incomum que transita pela imaginação popular, fazendo nascer o verde naqueles
lugares em que lança suas necessidades. Aguinaldo Silva aproveitou o mesmo motivo,
em sua novela Pedra sobre pedra (1992), com os investimentos cômico-amorosos
do personagem Jorge Tadeu e o surgimento miraculoso de uma flor que levou seu
o nome (representada televisamente por uma arácea branca chamada
lírio-da-paz, bandeira-branca ou espatifilo, muito aparentada com o antúrio). O realismo fantástico
que habita o livro desdobra outras tramas: o fabuloso destino de Maria Flor é pura condenação,
injustiça e desprezo sem piedade dos moradores.
A bela flor dos rincões enfim despetalou-se. Como já era previsto, sua ingratidão revelou-se.
A flor selvagem sem pago quer aqui fazer estrago. É preciso que se arrependa: devemos castigar a prenda.
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E a moça isola-se, espinho no peito, suspeitando que algo terrível ainda poderá
acontecer, numa noite escura como breu. Talvez, a voz do povo responda por Deus
e a premonição sobre sua maldade torne-se real. O presente de Maria é tormento e pressentimentos
ruins: André Neves habilita o medo a tomar conta da cena, junto ao fantástico
que está por vir. Já ouviram histórias da noiva do Diabo? Coisa ruim não espera tempo
para chegar e Maria transforma-se na outra: O coração rachou como solo árido e seus
sentimentos sumiram deixando apenas um espírito sombrio. É Maria Peçonha que invade
as páginas do livro, sua figura torna-se mítica e rasgada, sem olhos-portas da alma,
envolta por uma atmosfera que não deixa de ser feérica. A desfiguração de Maria evoca
lembranças e assombrações de outras paragens, sofrimentos que o romantismo agudo eternizou.
É importante destacar que a lenda é um gênero literário que admite o amargor e,
por essa e outras razões, pode ser considerada a forma oposta ao conto tradicional
de magia e otimismo. A lenda é o conto trágico, sua beleza emana da tensão
entre o possível e o verídico dentro das séries históricas. No caso da obra Maria Peçonha,
o texto comporta-se como uma lenda, não sendo uma narrativa tradicional,
resultante de diversas escolhas temáticas, das referências e do tratamento do material literário.
A história de Maria Flor acontece em Alegrete, cidade dos pampas, ao sul do país —
porém ninguém a jamais lera antes, pois se trata de invenção-das-bem-inventadas do autor.
Ao final do livro, André Neves dispõe informações que contextualizam não exatamente
a "história", mas a tecidura da pesquisa, suas motivações, os drops de informação,
os livros que leu, as associações deliberadas que produziram este conto fantástico.
Portanto, não cabe ao leitor julgar a distância entre fantasia e realidade, isso é o que menos
importa à leitura literária. Aliás, como pensou Gil Vicente, tão remoto, atual e pertinente,
em 1527, através do Auto da Feira, a Verdade é o que deram para chamar de Maria Peçonha!
Não se compra, nem se vende... e André Neves prediz desjuízo para as fronteiras textuais: Com sorte,
esta história se transformará em uma tradição oral. Tudo é possível. Quem sabe um dia
ela seja contada de diferentes formas e seu enredo se fortaleça no imagético sorriso
estridente de Maria Peçonha.
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