Pedras soltas 
 Eloí Elisabete Bocheco



Eloí Elisabete Bocheco
Pedras soltas

capa: Lair Leoni Bernardoni
Editora da UFSC, 2006


Quando chega em casa
o livro mais recente de Eloí num envelope desenhado a letra miúda, anuncio aos quatros ventos que eles podem, enfim, sentar-se à mesa. Sou daqueles indivíduos que tem por hábito comer livros
e começo passando os dedos em cada dedicatória que
me é dada a fim de conferir o relevo em tinta dourada.
Atrás de cada página virada, componho minha história de leitura num ritmo senza parole, cadência de pausas no olhar. Porque conheço Eloí desde o tempo em que se guardava sol com folhas de embira e o seu nome contava dezenove letras; foi depois, quase agora, que apareceu mais um E de permeio (e, falando nelE, ainda não lhe perguntei a natureza, se dado por correção, donde se escorreu). Deixa estar, tipografia.
Sei apenas que o desconhecido é calmo e pingou
algumas gotas de bálsamo no meu café
.

Naquele tempo de agora-menos-oito-anos, ela
inventava poetar para crianças e seria desatino,
seria ousadia, fazer artes com a mesma seiva que plantou Cecília, Elias, Paulo Paes, nas letras brasileiras. Mas
seus versos tinham gosto de memória afetiva,
de gritar palavras pra dentro do poço pra ouvir o eco. Só sei que escutei, bem antes da trombeta derradeira, o rumor que ali verdejava de alecrim. Lá foi uma, foram duas, três cartas pelas madrugadas e encostas virtuais e, então, já éramos amigos de porta e janela. E Eloí virou madrinha de meus caminhos, como professor de literatura infantil, em sua própria terra: imaginava você viajando e te abençoava, imaginava você começando lá e te abençoava, tava
o tempo todo com você, te desejando uma linda jornada! Creio que a tua jornada pelo grande oeste está só começando! Diria mais: a jornada em Santa Catarina.


Eloí foi certeira em seu bem-querer
e, entre uma viagem e outra,
fui casualmente presenteado por Thaís de Almeida Dias
(que havia sido minha chefia, nos anos da Rádio Cultura FM, e fora morar em Treze Tílias) com três recortes de jornal:
era Eloí cronicando bromélias, assentamentos e bules. Discreta sempre, secreta e serena, nada me contara!
Somente as horas ímpares, que seus textos transpunham à realidade, atenuavam a breve traição. Quando chegares, recolhe pra mim a lenha seca, imagino ouvir
seu manso jeito capitu de todas as vezes
quando arremesso uma pergunta escrutinadora,
que vou ali no pé do mundo e já volto.
Tem sequilhos pro teu café no guarda-louça.


São estes improvisos inesperados que reverberam
dentro da gente. As crônicas — velhas crônicas — publicadas no jornal A Notícia, entre 1998 e 2001, então reunidas por Pedras soltas, tem feitio para amansar a adversidade com toques e sotaques de lirismo fantástico. São composições
em marcha de desalinho, porém nem mesmo o espaço pouco da lauda e meia fora capaz de reduzir as virações de Eloí. Como registro dos fatos cotidianos e de reminiscências, vividas ou inventadas, é a autora quem aponta o dedo arguto contrário às modas e aos vendilhões. Mas, declarando-se para indefinidos fins, a cronista abre um rastro de espelho partido em mil pedaços e identidades. Cria narradoras
— que o gênero diário parecia desconhecer —
numa altiva recorrência de vozes, timbradas
por veludo e vingança, poeticamente articuladas.
Hoje, perfiladas em conjunto, as crônicas mostram seu bordado: não vem à toa nenhuma frase, por mais travestida de non-sense que se pareça; a linha evola da referência local e da prisão do tempo. São como mimos de coral, ou riscos de groselha, em que o precioso e o efêmero provocam espanto.

Deixe de lado o que eu disse;
o que importa mesmo é que cavei um túnel que vai
dar numa cantiga luminosa. Você pode vir comigo,
se quiser; eu quero que você venha.


Acompanhar os passos, as transfigurações dessa autora
que se esconde na toca da onça, é para mim privilégio.
Três livros de poemas para crianças, um abraço mágico para a reflexão, duas aventuras de uma bruxinha e a terceira lengalenga dela que está por vir, uma novela em trânsito... Prêmios que chegam, Boi-de-mamão (1999), Leia Comigo FNLIJ (2002), Casa de Cultura Mário Quintana (2005) e Literatura para Todos (2006), mais as indicações no último Catálogo de Bolonha e, entre seis escritores brasileiros, para o White Ravens (Alemanha). As crônicas chegam com atraso, parece que foi tudo ontem... No avarandado de sua cozinha foi onde ouvi “As oito moças”, tanto quanto eu queria ouvir,
e foram as primeiras vinte e ininterruptas horas de conversa com Eloí. O encontro virou palavra, “Dentro do caroço” e hoje me é restituído um fragmento, guardado em livro. Em que momento minha amiga piscou para dentro de si? Não sei.

Com Peter, amigo querido, compartilho
estas velhas crônicas
— primeiras incursões nas veredas da literatura.

Com carinho e
admiração sem fim,

Eloí
maio/2006

Comentários de
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura

« A figura alegre dos bules sempre me fascinou. Foram os bules inventados sob o signo de Libra, com ascendente
na alegria de Touro e
a lua em Aquário.
Tal combinação explica
a claridade que sobrevém à súbita visão de
um bule no guarda-louça, sobre o fogão, ou
em qualquer outra superfície do mundo.
Certo bule de barro com chá quente de hortelã tombou sobre os pés de uma mulher. Ela não sentiu dor e foi então que descobriu que há muito andava com imitações de pés. Tratou depressa de descobrir em que lugar deixara os pés de nascença. Donde se conclui que um bule, às vezes, escreve certo por linhas tortas.
Por mais que venham a mudar o perfil dos bules, não creio
que lhes tirem o bico. Bule sem bico fica sem identidade. O bico é a alma do bule. Alma limpa. Se gritarem:
"Pega ladrão!",
os bules nem se mexem. Os vendilhões do templo também não. Só que estes, os vendilhões, calçam a cara com tijolo maciço e saem em passeio pelo Egito, faceiros da vida. O riso largo e a cauda presa. Nem nascendo de novo, os vendilhões alcançariam a dignidade de um bule.
Nunca
se sabe pra onde um bule está olhando: pro fim dos tempos, prum princípio de estação, ou pra boca de uma caverna do Neanderthal. Ninguém se engane: a quietude dos bules é pura brasa coberta. Latejam as horas uma após a outra.
A natureza dos silêncios varia muito com a viração; por isso, um bule nunca se repete. Amanhecem outros sem que se perceba. Fomos jovens há muito tempo, meu bule e eu. »


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