Georgina Martins No olho da rua: histórinhas quase tristes il. Nelson Cruz Ática, 2005 Maria nasceu em mil novecentos e antigamente, no Rio de Janeiro. Já viu tanta coisa e tem muito o que contar: histórias de meninos e meninas, às vezes com casa, às vezes sem casa, sempre andando por aí, pelas ruas da cidade... você vai ver. E ouvir. São cinco histórias que Maria narra, com grande intimidade e leveza, revelando com calma sonhos atrás de cada rostinho sujo com ar de impaciência. O primeiro conto - Os meninos e a pizza - narra o inusitado encontro de Ana com Andrey, Wesley e Anderson: a cena do susto e assalto se dilui em um ambiente de confraria, em que o convite ao diálogo franqueia saber o outro diante de nós: nomes, sonhos, perspectivas e, enfim, camaradagem. O menino e o livro traz cores de crônica e desarma o preconceito da narradora (e tão nosso) diante do leitor raquítico, fraquinho e maltrapilho, sentado entre estantes de uma livraria. O terceiro episódio - O menino e o sinal - é talvez o mais agudo ao contrapor a felicidade e a birra dos meninos, sejam aqueles que se esgueiram entre carros nas esquinas, sejam aqueles que dia-a-dia chamamos de filho... Um toque de humor e uma lógica que escapa à matemática estão no conto A menina e as balas: é preciso mais do que a boa ação para entender a pequena vendedora. A última história - O menino e o fim é quase totalmente triste, tocando-nos profundamente ao expor uma realidade de incompreensão, destinos e pessoas que se perdem... Muitas novelas sobre meninos de rua, trabalho infantil e violência urbana foram trazidas para as páginas da Literatura para Crianças, é verdade. Mas Georgina Martins produz textos isentos de fatalidade ou comiseração. Nenhum alarde. Apenas a predisposição para ultrapassar as barreiras do silêncio que impõem a diferença e que a diferença impõe: aqui, a solidariedade é laço de respeito e diálogo, palavra que vence o medo. |
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